Quanto Cobrar Pela Entrega: A Conta do Frete Próprio

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A moto encostou na guia às onze e quarenta e dois, o motor ainda quente, e o Rafael tirou o capacete com aquela cara de quem já sabe que a manhã não fechou.

Uma coxa de frango assada e suculenta, guarnecida com alecrim fresco, servida em um prato rústico de cerâmica, em primeiro plano e em foco. Ao fundo, levemente desfocada, uma embalagem preta de Tempero para Frango Granuz, sobre uma bancada de madeira.
Onze marmitas entregues em três bairros diferentes, 47 quilômetros no odômetro entre a primeira e a última, duas horas e dez minutos fora de casa. Ele cobra R$ 5,00 de taxa de entrega em todas, porque foi o valor que o concorrente da esquina cobrava quando ele começou. Onze vezes cinco: R$ 55,00. O tanque da moto pediu R$ 26,00 naquela mesma tarde.

Sobrou R$ 29,00 para duas horas e dez de trabalho, moto desgastando e ele exposto no trânsito. Isso é R$ 13,40 por hora, abaixo do que ele mesmo paga a quem o ajuda na cozinha. O erro do Rafael não foi cobrar pouco: foi cobrar um número que ele nunca calculou. Aqui está a conta inteira — quanto custa de verdade rodar um quilômetro, como transformar isso em faixa de preço por distância, quando entrega grátis compensa e por que a rota agrupada é o único jeito de a taxa caber no bolso do cliente sem sair do seu.

Resposta rápida

Quanto cobrar pela entrega de comida? Calcule R$ 0,70 a R$ 0,95 por quilômetro rodado de moto (combustível, manutenção e desgaste) e some a sua hora de trabalho pelo tempo real da viagem, ida e volta. Uma entrega de 4 km em bairro próximo custa entre R$ 14,00 e R$ 17,00 avulsa, e cai para R$ 8,00 a R$ 10,00 quando quatro pedidos saem na mesma rota.

Os ingredientes

Antes de definir qualquer taxa, levante estes seis números do seu caso. Eles mudam por cidade, por veículo e por mês, então anote a data ao lado de cada um:

  • Consumo do veículo. Moto 150 cilindradas em uso urbano: 30 a 38 km por litro. Carro popular no trânsito de cidade: 8 a 11 km por litro. Bicicleta elétrica: cerca de 0,9 kWh a cada 40 km.
  • Preço do combustível na sua bomba, hoje. A gasolina comum no Brasil rodou entre R$ 5,80 e R$ 6,60 o litro ao longo de 2026, com variação forte entre estados por causa do ICMS. Use o número da sua cidade, não a média nacional.
  • Custo por quilômetro além do combustível. Óleo a cada 3.000 km, pneu a cada 12.000, relação a cada 15.000, revisão, seguro e depreciação somam de R$ 0,35 a R$ 0,55 por km na moto e de R$ 0,80 a R$ 1,20 no carro. Com combustível, o total fecha em R$ 0,70 a R$ 0,95 por km de moto.
  • Sua hora de trabalho. Defina um valor e use sempre o mesmo: R$ 22,00 a R$ 35,00 por hora é a faixa que quem produz e entrega costuma praticar. Sem esse número, entrega parece de graça.
  • Tempo real porta a porta. Cronometre. Não é o tempo do mapa: some estacionar, subir prédio, esperar o interfone e voltar. Uma entrega "de 8 minutos" costuma consumir 22.
  • Embalagem de transporte. Marmita de alumínio de 750 ml com tampa: R$ 1,05 a R$ 1,40. Sacola kraft com alça: R$ 0,55 a R$ 0,80. Lacre de segurança: R$ 0,06 a R$ 0,12. Isso é custo do produto, não da entrega, mas some porque muita gente esquece os três.

Com esses seis números você monta a conta de uma entrega qualquer. Exemplo fechado, moto, bairro a 4 km: 8 km de ida e volta a R$ 0,80 dá R$ 6,40 de rodagem; 25 minutos porta a porta a R$ 25,00/hora dá R$ 10,40 de mão de obra. Custo real: R$ 16,80. Cobrar R$ 5,00 nessa entrega não é preço promocional, é prejuízo de R$ 11,80 por pedido. Se você ainda não tem o custo do prato em si, comece pela planilha de custo de receita antes de mexer no frete.

O passo a passo

  1. Meça o seu custo por quilômetro em vez de copiar o do vizinho. Abasteça o tanque cheio, zere o hodômetro parcial, rode uma semana normal e abasteça de novo. Litros gastos divididos por quilômetros rodados dão o consumo real com peso de bagageiro, sempre pior que o número do fabricante. Multiplique pelo preço do litro e some a parcela de manutenção.
  2. Cronometre cinco entregas reais e tire a média. Ligue o cronômetro quando a moto sai e pare quando ela volta. A média fica entre 18 e 30 minutos por entrega avulsa em cidade média, e o tempo parado — portaria, elevador, troco — pesa mais que o trajeto. É esse tempo que se cobra, não a distância do mapa.
  3. Monte faixas por raio, não preço único. Preço único pune o cliente perto e subsidia o de longe, e é por isso que os pedidos distantes sempre parecem crescer. Um desenho que funciona: até 3 km, R$ 7,00; de 3 a 6 km, R$ 11,00; de 6 a 10 km, R$ 16,00; acima de 10 km, só com pedido mínimo. Ajuste os valores para o seu custo por km, mantenha o formato.
  4. Agrupe por bairro e por dia fixo. Esta é a decisão que mais muda a conta. Quatro entregas numa saída única de 14 km e 70 minutos custam R$ 11,20 de rodagem mais R$ 29,20 de tempo: R$ 40,40 no total, ou R$ 10,10 por entrega — contra R$ 16,80 da entrega avulsa. Anuncie "entrego no Jardim Paulista às terças e quintas" e você converte desconto em logística.
  5. Defina o piso de entrega grátis pela margem, não pelo faturamento. A pergunta certa não é "a partir de quanto eu entrego grátis", é "a partir de qual margem acumulada a entrega se paga". Se cada marmita deixa R$ 6,50 de margem e a entrega custa R$ 16,80, o piso é de três marmitas (R$ 19,50 de margem). Piso baseado em valor de venda ignora que pratos diferentes têm margens diferentes.
  6. Coloque a taxa visível antes do pedido, nunca depois. Taxa que aparece no fim da conversa cancela venda e gera fama de escondido. No catálogo, no status, na mensagem fixa: raio, valor e dias de entrega. O catálogo de WhatsApp bem montado resolve isso com uma mensagem automática de boas-vindas.
  7. Revise a tabela a cada reajuste de combustível acima de 8%. Não a cada centavo. Combustível oscila toda semana e mexer no preço toda semana desgasta o cliente. Mas uma alta acumulada de 8% no litro derruba visivelmente a sua margem de entrega, e é o gatilho objetivo para recalcular as faixas.
  8. Compare com terceirizar antes de decidir entregar você mesmo. Motoboy avulso por aplicativo cobra de R$ 8,00 a R$ 15,00 por corrida urbana; a diária de motoboy fixo fica entre R$ 130,00 e R$ 190,00 por seis horas em capital. Com doze entregas por dia, a diária sai a R$ 13,30 cada e devolve seis horas suas para a cozinha.

Os 5 erros que transformam a taxa de entrega em prejuízo silencioso

  • Copiar a taxa do concorrente. Ele pode ter moto quitada, morar dentro do raio, contar com um filho que leva de bicicleta ou estar perdendo dinheiro sem saber. Taxa é resultado de custo, e custo é individual. Copiar número alheio é herdar erro alheio.
  • Cobrar por distância em linha reta. O mapa mostra 3 km; a rua tem mão única, viaduto e retorno a 900 metros. O percurso real de moto costuma ser 25% a 40% maior que a linha reta em cidade grande. Trace a rota de verdade no aplicativo de navegação, ida e volta, antes de fixar a faixa.
  • Esquecer o retorno. É o erro mais comum e o mais caro: quem calcula 4 km calcula metade do que roda. A entrega termina quando a moto volta para casa, e o combustível da volta sai do mesmo tanque. Todo cálculo de entrega própria é sempre distância vezes dois.
  • Dar entrega grátis para segurar cliente que já é fiel. Cliente fiel compra pelo produto e aceita a taxa. Entrega grátis como retenção vira desconto permanente de R$ 12,00 a R$ 17,00 por pedido em quem já ia comprar. Se for dar algo, dê no produto — um acompanhamento, uma sobremesa pequena —, que custa uma fração e o cliente percebe mais.
  • Não somar a própria hora. A entrega parece barata porque o tempo do dono não entra na planilha. Duas horas por dia entregando são 44 horas por mês. A R$ 25,00 a hora, R$ 1.100,00 de trabalho não remunerado, que aparecem depois disfarçados de "esse mês não sobrou nada". Esse é o mesmo mecanismo do custo fixo que ninguém lança na conta da cozinha de casa.

Variações e contexto

A conta muda conforme o produto. Marmita e refeição pronta têm janela apertada: precisam chegar quentes, o que limita o raio a 20 ou 25 minutos de trajeto. Bolo, salgado congelado e conserva toleram rota grande e horário flexível, o que permite agrupar dez ou doze entregas numa saída só e derrubar o custo unitário para menos de R$ 7,00. Quem vende congelado tem aqui uma vantagem que raramente explora: entregar num único dia da semana e cobrar taxa menor por isso.

Entrega própria e aplicativo não são a mesma disputa. No aplicativo, a taxa de entrega quem define é a plataforma, e o que sai do seu bolso é a comissão sobre o pedido — de 12% no plano básico a 27% no plano com entrega inclusa, dependendo do contrato. A lógica de precificação lá é outra e está detalhada em como precificar comida no iFood sem prejuízo. Na venda direta, você controla a taxa mas assume o risco, o tempo e o veículo. A maioria dos negócios pequenos acaba operando nos dois canais com preços diferentes — e isso é correto, não é incoerência.

Vale lembrar que a taxa de entrega é a última linha da conta, não a primeira. Ela só faz sentido depois que o preço do prato está fechado com margem real, e o prato só fecha com margem quando o insumo entra pelo preço certo — motivo pelo qual vale ler junto como negociar com fornecedor de insumos e a fórmula de preço da marmita. Entrega mal cobrada corrói uma margem que existe; entrega bem cobrada não cria a margem que falta.

Perguntas rápidas

Quanto cobrar de entrega em bairro vizinho?

Para um raio de até 3 km, a faixa que cobre custo e trabalho fica entre R$ 6,00 e R$ 9,00 na maior parte das cidades brasileiras, considerando moto e 15 a 20 minutos porta a porta. Abaixo de R$ 6,00 você está pagando para entregar, a menos que a rota já esteja agrupada com outros pedidos do mesmo dia.

Devo cobrar entrega por pedido ou por item?

Por pedido, sempre. O custo da entrega é a viagem, não a quantidade de marmitas na bagageira: levar uma ou seis para o mesmo endereço custa quase o mesmo. Cobrar por item pune justamente o cliente que compra mais e empurra pedidos para o formato que menos interessa ao seu negócio.

Entrega grátis vale a pena?

Vale quando é condicionada a um piso de margem, não a um valor de venda. Se cada prato deixa R$ 6,50 e a entrega custa R$ 16,80, entregar grátis a partir de três unidades funciona; a partir de "R$ 50,00 em compras" pode não funcionar, porque R$ 50,00 em pratos de margem baixa não pagam a viagem.

Como calcular entrega de bicicleta?

O custo de rodagem cai para R$ 0,08 a R$ 0,15 por quilômetro, mas o custo de tempo sobe: a velocidade média urbana de bicicleta é de 12 a 16 km/h contra 22 a 28 km/h de moto. Numa entrega de 8 km ida e volta, você troca R$ 6,00 de combustível por cerca de 20 minutos a mais do seu tempo. Vale em raio curto, não em raio longo.

Posso embutir a entrega no preço do prato?

Pode, e funciona bem quando quase todos os clientes estão no mesmo raio. O risco aparece quando você atende bairros distantes: o cliente perto passa a subsidiar o de longe e o seu prato fica caro na comparação de vitrine. Embutir só é seguro com raio único e comunicado como entrega inclusa.

O que fazer quando o cliente acha a taxa cara?

Ofereça a alternativa em vez de cortar o valor: retirada no local sem taxa, ou entrega no dia em que você já roda aquele bairro. Você preserva a taxa, dá saída ao cliente e ainda alimenta a rota agrupada, que é o que baixa o custo de verdade. Baixar a taxa caso a caso destrói a tabela em duas semanas.

Devo cobrar a mais em dia de chuva?

Cobrar adicional pontual gera atrito e é difícil de explicar. O caminho mais comum entre quem entrega por conta própria é manter a tabela e suspender o raio maior nos dias de chuva forte, entregando só até 3 km. Você protege a segurança e o tempo sem mexer no preço que o cliente já conhece.

Vale contratar motoboy fixo?

A conta vira a favor quando você passa de aproximadamente dez entregas diárias. Uma diária de R$ 150,00 por seis horas dividida por doze corridas dá R$ 12,50 cada, próximo do custo da entrega própria — com a diferença de devolver seis horas suas para a produção, que é onde a sua hora rende mais.

Entrega ajustada só melhora a margem quando o prato que viaja também está certo, e é aí que o tempero pesa mais do que parece: o tempero para frango a granel padroniza o prato mais pedido do delivery caseiro e evita que a marmita da terça tenha gosto diferente da de quinta; o alho em pó a granel entra no refogado de base sem o risco de queimar e amargar, o que importa quando a comida ainda vai passar vinte minutos numa bagageira; o colorífico a granel segura a cor do arroz e do frango depois do transporte, quando o vapor apaga o visual; o Tempera Tudo a granel resolve a base de carnes e legumes num item só, reduzindo o número de potes abertos na correria; e o caldo de galinha em pó a granel dá corpo a molho e arroz sem depender de fundo fresco. Quem entrega todo dia consome esses cinco em ritmo alto — e é exatamente esse volume que justifica o formato granel em vez do sachê de 50 g, que continua sendo a escolha certa para testar um item novo no cardápio antes de comprometer quilo.

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