Planilha de Custo de Receita: As 6 Colunas Que Bastam
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Tempo de leitura: 11 minutos.
Sábado, sete e meia da manhã, cozinha de fundo de quintal em Contagem. O fogão de seis bocas já tem três panelas ocupadas, o exaustor improvisado zumbe e a bancada inteira cheira a cebola caindo no óleo quente. Encostado no azulejo, protegido por um saco plástico, mora um caderno de capa dura com a lombada solta. Dentro dele, há dois anos, a mesma letra anota coisas como "frango 32,90" e "gastei 180 no mercado". No fim do mês, quando chega a hora de saber se aquele frango desfiado de marmita dá lucro, o caderno não responde. Ele registra dinheiro saindo, não custo de prato.
A diferença entre as duas coisas é o assunto deste texto. Você vai montar uma planilha de custo de receita com seis colunas — nem uma a mais — e vai preenchê-la com um lote real de frango desfiado temperado, do quilo comprado até o custo da porção de 120 g. No caminho fica claro por que o tempero, que parece irrelevante por ser "só um punhado", precisa de linha própria, e por que o rendimento pesado depois da panela é o número que muda tudo. Você precisa de uma balança de cozinha com precisão de 1 g, das notas fiscais da última compra e de quarenta minutos.
Resposta rápida
Quais colunas uma planilha de custo de receita precisa ter? Seis: ingrediente, quantidade da embalagem comprada, preço pago pela embalagem, custo unitário por grama ou mililitro, quantidade usada na receita e custo na receita. O custo por porção sai de uma sétima conta, fora da tabela: custo total do lote dividido pelo rendimento real pesado depois do cozimento, nunca pelo peso cru.
Os ingredientes
O kit de trabalho e o lote de referência que vai preencher a planilha inteira deste artigo:
- 1 balança digital de cozinha com precisão de 1 g e capacidade de 5 kg
- 1 caderno ou 1 arquivo de planilha com 6 colunas e 12 linhas
- As notas fiscais ou cupons das últimas compras de cada item
- 5 kg de sobrecoxa de frango sem osso e sem pele
- 400 g de cebola picada
- 90 ml de óleo de soja
- 25 g de alho em pó
- 40 g de Tempera Tudo
- 12 g de orégano
- 8 g de páprica doce
- 15 g de sal refinado
- 1,2 L de água
Rendimento do lote: 3,6 kg de frango desfiado temperado, ou 30 porções de 120 g. Os 5 kg crus perdem cerca de 28% de peso entre a água que evapora e a gordura que escorre — é por isso que o rendimento precisa ser pesado, não estimado. Se você usa coxa com osso em vez de sobrecoxa limpa, o desconto é maior ainda e a planilha muda: o osso entra no preço da compra e sai do rendimento.
O passo a passo
- Escolha uma unidade só e não negocie mais. Grama para sólidos, mililitro para líquidos. Colher de sopa, xícara, "punhado" e "a gosto" não entram em planilha porque não convertem: uma colher de sopa de orégano pesa 2 g e uma de páprica pesa 7 g, e nenhuma fórmula sabe disso sozinha. A primeira meia hora de balança compra dois anos de conta certa.
- Monte as seis colunas nesta ordem. Coluna 1, ingrediente. Coluna 2, quantidade da embalagem comprada. Coluna 3, preço pago pela embalagem. Coluna 4, custo unitário, que é a coluna 3 dividida pela coluna 2. Coluna 5, quantidade usada na receita. Coluna 6, custo na receita, que é a coluna 4 multiplicada pela coluna 5. A ordem importa porque é a ordem em que você tem a informação na mão: primeiro o cupom, depois a panela.
- Preencha as colunas 2 e 3 com o cupom, não com a memória. No lote de referência: sobrecoxa R$ 18,90 o quilo, óleo de 900 ml a R$ 7,80, cebola a R$ 4,50 o quilo, sal de 1 kg a R$ 3,20. Nos temperos, o granel muda a escala: alho em pó a R$ 78,00 o quilo, Tempera Tudo a R$ 42,00, orégano a R$ 96,00 e páprica doce a R$ 68,00. Anote o preço que você pagou de verdade, com a data ao lado.
- Calcule a coluna 4 uma única vez por ingrediente. R$ 78,00 dividido por 1.000 g dá R$ 0,078 por grama de alho em pó. R$ 7,80 dividido por 900 ml dá R$ 0,00867 por mililitro de óleo. Esse número é a chave da planilha inteira: uma vez calculado, ele serve para todas as receitas que usam o mesmo ingrediente, e você nunca mais faz regra de três no meio do expediente.
- Pese a receita de verdade uma vez na vida. Não copie a quantidade do caderno antigo: cozinhe o lote com a balança ligada e anote o que realmente entrou na panela. É comum descobrir que o "meio quilo de cebola" são 400 g e que o "fio de óleo" são 90 ml. Essa é a coluna 5, e ela é a que mais engana quem estima.
- Multiplique e feche a coluna 6. No lote: frango R$ 94,50, óleo R$ 0,78, cebola R$ 1,80, alho em pó R$ 1,95, Tempera Tudo R$ 1,68, orégano R$ 1,15, páprica R$ 0,54, sal R$ 0,05. Total do lote: R$ 102,45. Os quatro temperos somam R$ 5,32, ou 5,2% do custo — pouco no total, mas é exatamente esse pedaço que some quando alguém decide que tempero "não precisa entrar na conta".
- Pese o rendimento depois da panela, com o prato frio. Os 5 kg crus viraram 3,6 kg prontos. Pese em duas etapas se a balança for pequena, e pese depois de esfriar: frango quente continua perdendo água e você registra um número que não existe mais na hora de montar a marmita.
- Faça as duas divisões finais fora da tabela. R$ 102,45 dividido por 3.600 g dá R$ 0,0285 por grama de produto pronto. R$ 102,45 dividido por 30 porções dá R$ 3,42 por porção de 120 g. O primeiro número serve para montar qualquer marmita com pesos diferentes; o segundo serve para conversar com o cliente. Guarde os dois.
- Congele a planilha por 30 dias e refaça só a coluna 3. Ingrediente, quantidade e rendimento mudam pouco. Preço muda toda semana. Uma vez por mês você reabre o arquivo, troca os valores pagos, deixa as fórmulas recalcularem e descobre em cinco minutos se o prato subiu ou desceu de custo.
Os 5 erros que fazem a planilha mentir para você
- Misturar unidade de compra com unidade de uso. A embalagem vem em quilo, a receita foi anotada em colher, e a planilha tenta casar as duas. O resultado é um custo unitário calculado em cima de um chute. Padronize tudo em grama e mililitro antes da primeira linha; a conversão feita depois, no meio da fórmula, é onde nasce a maior parte dos erros de dez vezes para mais ou para menos.
- Registrar o preço da promoção como se fosse o preço normal. A caixa de tomate pelado que você pegou a R$ 4,20 numa quarta-feira volta a R$ 6,90 na semana seguinte, e a planilha continua jurando que o molho custa o que custava. Use sempre o último preço pago, e se o item oscila muito, use a média das três últimas compras. Preço de promoção é lucro extra do mês, não base de precificação.
- Deixar o tempero de fora porque "é pouquinho". No lote de referência são R$ 5,32 num total de R$ 102,45. Parece desprezível até você multiplicar por vinte lotes no mês: R$ 106,40 que sumiram da conta e apareceram no extrato. O cálculo do custo do tempero no prato é justamente a linha que quase todo mundo apaga primeiro.
- Dividir o custo pelo peso cru. Se você dividir R$ 102,45 pelos 5.000 g que entraram, chega a R$ 0,0205 por grama e acha que a porção de 120 g custa R$ 2,46. O número real é R$ 3,42 — 39% maior. Essa diferença é a distância entre achar que a marmita dá lucro e descobrir no fim do trimestre que ela nunca deu.
- Construir uma planilha com quatorze colunas. Fornecedor, código, data da nota, ICMS, categoria, subcategoria, observação. Tudo isso é útil num sistema e é fatal num arquivo que você precisa preencher no sábado à noite, cansado. Planilha que dá trabalho é planilha que para de ser preenchida no segundo mês. Seis colunas cabem numa folha de caderno e sobrevivem ao cansaço.
Variações e contexto
Essa estrutura de seis colunas é a versão doméstica da ficha técnica que restaurante grande usa há décadas, com uma diferença honesta: a ficha profissional carrega ainda o fator de correção de cada insumo, um índice que registra quanto de cada quilo comprado vira comida de fato depois de descascar, aparar e cozinhar. Quem trabalha com poucos itens consegue viver sem esse índice desde que pese o rendimento final de cada receita, que é o mesmo dado por outro caminho. Se o seu cardápio tem mais de dez pratos, vale estudar o rendimento por ficha técnica e migrar para a versão completa.
Com a planilha fechada, o custo por porção vira insumo de outras três decisões. A primeira é o preço de venda, que não é o custo multiplicado por um número mágico: no delivery, taxa de plataforma, embalagem e comissão comem uma fatia que precisa entrar antes da margem, assunto do guia de precificação para iFood e delivery. A segunda é a compra: sabendo que os temperos representam pouco mais de 5% do custo mas aparecem em 100% dos pratos, a conta de comprar tempero em atacado muda de figura. A terceira é o cardápio: pratos com custo por porção muito diferente entre si desequilibram a média e escondem o item que dá prejuízo.
Vale montar a planilha antes mesmo de existir negócio. Quem está estudando como abrir uma marmitaria do zero costuma começar pelo cardápio e pelo layout da cozinha, e chega no custo depois que já comprou freezer. A ordem inversa é mais barata: escolha três receitas candidatas, custeie as três com as seis colunas, e deixe o cardápio nascer do número. Uma tarde de balança e caderno responde o que seis meses de intuição não respondem.
Perguntas rápidas
Preciso de Excel para fazer planilha de custo de receita?
Não. As seis colunas cabem numa folha de caderno pautado e a única conta é uma divisão seguida de uma multiplicação. A vantagem da planilha eletrônica aparece a partir do quinto prato, quando você quer trocar o preço de um ingrediente em um lugar só e ver o custo de todas as receitas se atualizar sozinho.
Como calculo o custo por grama de um tempero?
Divida o preço pago pela embalagem pelo peso da embalagem em gramas. Um pacote de 40 g comprado por R$ 8,90 custa R$ 0,2225 por grama. O mesmo item a granel, a R$ 78,00 o quilo, custa R$ 0,078 por grama. É a mesma conta em escalas diferentes, e ela explica por que quem cozinha para vender migra para o granel.
Devo colocar mão de obra e gás dentro da planilha da receita?
Não dentro dessas seis colunas. Elas calculam o custo de matéria-prima, que é um número limpo e comparável entre pratos. Gás, energia, embalagem, água e o seu tempo são custos de operação e entram numa segunda camada, aplicada sobre o total do mês, não sobre o quilo de frango.
De quanto em quanto tempo preciso atualizar os preços?
Uma vez por mês para o cardápio inteiro, e imediatamente para qualquer item que subir mais de 15% de uma compra para outra. Proteína e hortifrúti costumam exigir a revisão mensal; tempero seco, sal e óleo aguentam trimestre sem distorcer o resultado de forma relevante.
Qual a diferença entre custo por porção e custo por quilo?
Custo por quilo é o total do lote dividido pelo rendimento em quilos, e serve para montar marmitas com pesos variados. Custo por porção é o total dividido pelo número de porções servidas, e serve para negociar preço. No lote deste artigo, R$ 28,46 por quilo pronto e R$ 3,42 por porção de 120 g são o mesmo dinheiro dito de duas formas.
O que faço quando compro um ingrediente em embalagem gigante?
Nada muda. Um saco de 5 kg comprado por R$ 210,00 dá R$ 0,042 por grama, exatamente como o pacote pequeno daria. A coluna 4 existe justamente para neutralizar o tamanho da embalagem e deixar comparável o preço de fornecedores que vendem em formatos diferentes.
Preciso pesar o rendimento toda vez que faço a receita?
Não. Pese nas três primeiras vezes, anote os três valores e use a média. Depois disso, repita a pesagem só quando trocar de fornecedor de proteína, mudar o tempo de cozimento ou alterar a proporção de líquido, porque são essas três variáveis que mexem no rendimento final.
A planilha serve para receita doce também?
Serve, e costuma ser mais precisa, porque confeitaria já trabalha em gramas e tem perda pequena. A diferença é que em bolo e doce o rendimento é medido em unidades — 24 fatias, 40 brigadeiros —, então a divisão final usa a contagem, não o peso.
No lote de referência, cada tempero ocupa uma função distinta e por isso ganha linha própria na planilha. O Tempera Tudo é a base salgada e aromática que dispensa três potes separados e simplifica a coluna 5. O alho em pó entra onde o alho fresco perderia força no cozimento longo e ainda dispensa o trabalho de descascar, que é custo de mão de obra disfarçado. O orégano dá o fundo herbáceo que segura o frango desfiado por três dias na geladeira sem enjoar, e a páprica doce resolve a cor, que é o que faz a marmita parecer temperada antes da primeira garfada. Para quem produz mais de dez quilos por semana, as versões a granel de Tempera Tudo e alho em pó derrubam a coluna 4 para menos de um terço do valor do sachê, e é essa linha que decide se a sua planilha fecha no azul.