Foto apetitosa de majadito em destaque, ilustrando a receita apresentada no blog Granuz

Majadito: O Arroz que a Bolívia Tinge de Urucum e Coroa com Ovo Frito

Tempo de leitura: 9 minutos.

O charque chia na gordura quente. A cebola vem atrás, e o cheiro da cozinha muda de sal para doce. Então entra o colorau, e a panela inteira vira cobre. No oriente da Bolívia, em Santa Cruz e no Beni — terra de fazenda de gado, conta a tradição —, esse arroz cor de tijolo atende por majadito. Ele chega à mesa coroado por um ovo frito de borda rendada e fatias de banana-da-terra douradas na frigideira. A gema estoura, escorre pelo grão vermelho, e ninguém espera a ordem para começar.

Neste guia, você aprende a versão clássica com charque desfiado, entende a diferença entre o majadito batido (úmido, de colher) e o seco (de grão solto) — e descobre por que o colorau entra no óleo, nunca na água. O majadito é primo direto do nosso arroz com carne seca: a técnica você já meio que conhece. O que muda é a cor, a banana e o ovo por cima.

Os ingredientes

  • 400 g de charque (carne seca), dessalgado e desfiado
  • 2 xícaras (chá) de arroz branco
  • 1 colher (sopa) de colorífico (colorau)
  • 2 folhas de louro
  • 1/2 colher (chá) de pimenta-do-reino moída
  • 1 cebola grande picada
  • 4 dentes de alho amassados
  • 1 tomate maduro picado, sem sementes
  • 1 banana-da-terra bem madura, em fatias na diagonal
  • 4 ovos
  • 4 colheres (sopa) de óleo
  • 4 xícaras (chá) de água quente para a versão batida (3 1/2 para a seca)
  • Sal, só se precisar — o charque costuma dar conta
  • Cheiro-verde picado para finalizar (opcional)

O passo a passo

  1. Dessalgue o charque na véspera. Corte a carne em cubos grandes, cubra com água fria e deixe na geladeira por 12 horas, trocando a água 3 ou 4 vezes. Prove um pedacinho da borda antes de seguir: precisa ter gosto de carne, não de sal.
  2. Cozinhe e desfie. Ferva o charque em água limpa por cerca de 40 minutos, até o garfo desfiar sem briga. Escorra, espere amornar e desfie em lascas grossas. Reserve 1 xícara da água do cozimento e prove: se não estiver salgada, ela entra depois no lugar de parte da água do arroz.
  3. Doure o charque. Aqueça 2 colheres de óleo na panela em que fará o arroz e frite as lascas até as pontas ficarem crocantes, criando uma crosta dourada no fundo. Essa crosta é sabor: não lave a panela, ela vai se dissolver no refogado. Retire a carne e reserve.
  4. Tinja o óleo com o colorau. Na mesma panela, mais 2 colheres de óleo, fogo baixo. Junte o colorífico e mexa por 30 segundos, até o óleo ficar cor de tijolo. O pigmento do urucum se solta na gordura, não na água — é este passo que separa o majadito de um arroz pálido. Passou de 30 segundos, amarga.
  5. Refogue a base. Suba para fogo médio, junte a cebola e refogue até murchar. Entre com o alho, o tomate e a pimenta-do-reino e cozinhe até o tomate desmanchar, raspando a crosta do fundo. Devolva o charque e misture: cada lasca deve sair vermelha.
  6. Entre com o arroz e o louro. Junte o arroz cru e frite por 2 minutos, mexendo, até os grãos ficarem opacos e tingidos. Adicione a água quente (com o caldo reservado, se aprovado no passo 2) e as folhas de louro. Prove o líquido agora: ele deve estar um ponto acima do sal que você quer no arroz pronto — só então corrija.
  7. Escolha seu majadito: batido ou seco. Batido: use as 4 xícaras de líquido e mexa a cada 3 minutos com colher de pau, até o caldo engrossar num cremoso úmido, quase um risoto de fazenda. Seco: use 3 1/2 xícaras, tampe, fogo baixo, e não mexa até a água secar — a mesma disciplina do arroz soltinho de todo dia.
  8. Frite a banana e o ovo, e monte. Numa frigideira, doure as fatias de banana-da-terra em pouco óleo, 2 minutos por lado, até caramelizarem nas bordas. No mesmo óleo, frite os ovos com a gema mole e a borda rendada. Sirva o arroz, o ovo por cima, a banana ao lado, cheiro-verde por último.

Os 5 erros que deixam o majadito pálido, salgado ou empapado

  • Medir a dessalga no relógio, não na boca. Doze horas de molho valem pouco se a peça veio muito carregada de sal. Prove um pedacinho antes de cozinhar; se ainda arder, mais uma troca de água e mais 2 horas resolvem o que nenhuma receita salva depois.
  • Jogar o colorau direto na água. O pigmento do urucum se dissolve na gordura; na água, ele afunda e o arroz sai rosado e desbotado. Frite o colorau 30 segundos no óleo antes de tudo — é assim que a cor gruda no grão.
  • Queimar o colorau. Óleo quente demais ou um minuto de distração, e o vermelho vira marrom com amargor de fundo. Fogo baixo, 30 segundos cronometrados, e a cebola entra logo em seguida para segurar a temperatura.
  • Usar banana-da-terra verde. Verde, ela sai seca, travosa e sem caramelo nas bordas. A certa tem casca amarela com manchas pretas: doura por fora e vira creme por dentro. Se a sua está verde, espere mais uns dias na fruteira.
  • Mexer o seco — ou abandonar o batido. São dois pratos com regras opostas. O seco pede tampa e paciência: mexeu, soltou amido, virou papa. O batido pede colher de pau a cada 3 minutos: sem mexer, o creme não nasce e o fundo pega.

Perguntas rápidas

O que é majadito? É um arroz clássico do oriente boliviano, feito com charque desfiado e tingido de urucum (colorau). Vai à mesa finalizado com ovo frito e banana-da-terra dourada, e existe em duas versões: batido, mais úmido, e seco, de grão solto.

Qual a diferença entre majadito batido e majadito seco? O batido leva mais líquido e é mexido durante o cozimento, terminando cremoso, de comer de colher. O seco leva menos água e cozinha tampado, sem mexer, com o grão solto. A base de charque, refogado e colorau é a mesma nas duas.

Posso fazer majadito com carne de sol em vez de charque? Pode, declarando a troca: a carne de sol tem cura mais leve, então dessalga em menos tempo — umas 4 horas costumam bastar. O resultado fica um pouco mais macio e menos intenso que o do charque. Prove sempre antes de decidir o sal do arroz.

Colorau e urucum são a mesma coisa? Quase: o colorau, ou colorífico, é feito das sementes de urucum moídas, em geral com fubá, o que o torna pronto para a panela. É ele que dá a cor característica do majadito. No preparo, trate como pigmento: sempre frito na gordura, nunca dissolvido na água.

Não achei banana-da-terra. O que uso no lugar? A adaptação honesta é banana-prata madura e firme, frita rapidamente para não desmanchar. Ela é mais doce e menor que a banana-da-terra, então o contraste muda um pouco. Fatie mais grossa e doure em frigideira bem quente.

Sobrou charque cozido e desfiado. O que faço? Ele congela bem por até 3 meses e rende outras receitas da casa. Duas rotas prontas: a paçoca de carne seca, de pilão e farinha, e o escondidinho de carne seca cremoso, de forno e crosta dourada.

No fim, o majadito é uma aula de economia de fazenda: uma panela só, uma carne guardada em sal e um punhado de sementes que tingem tudo por onde passam. Na despensa, o protagonista é um só — um bom colorífico, frito nos primeiros 30 segundos, decide a cor do prato inteiro. O louro e a pimenta-do-reino fazem o resto em silêncio, como todo bom coadjuvante.

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