Foto apetitosa de charquekán em destaque, ilustrando a receita apresentada no blog Granuz

Charquekan: O Charque de Oruro que Vira Paçoca Crocante

Tempo de leitura: 7 minutos.

Tem um som que anuncia o charquekan antes mesmo de o prato chegar à mesa: o estalo seco das fibras de charque tocando a frigideira quente, seguido daquele cheiro de carne dourando que atravessa a cozinha e faz todo mundo perguntar o que está no fogo. Em Oruro, no altiplano boliviano, esse é o barulho do orgulho local — uma montanha de carne desfiada e crocante cercada de batata, milho, ovo e queijo, servida sem cerimônia e devorada com as mãos.

Nesta receita, você percorre o caminho completo: dessalgar o charque sem pressa, cozinhar até a carne ceder, desfiar em fibras finas e fritar até o ponto exato em que as pontas douram e estalam — quase uma paçoca crocante de carne. No fim, o prato se monta como em Oruro, com os acompanhamentos em volta da montanha dourada.

Os ingredientes

  • 500 g de charque (ou carne seca)
  • 3 colheres (sopa) de óleo — ou banha, para um sabor mais rústico
  • 2 dentes de alho amassados
  • 1 colher (chá) de colorau
  • Pimenta-do-reino em pó a gosto
  • 4 batatas médias, cozidas com casca
  • 2 xícaras de milho cozido (o mote andino original é raro no Brasil; canjica branca cozida ou milho verde na espiga são a adaptação honesta)
  • 4 ovos cozidos
  • 200 g de queijo minas frescal ou padrão, em fatias grossas

O passo a passo

  1. Comece pela dessalga. Corte o charque em pedaços grandes e deixe de molho em água fria, na geladeira, por 12 horas, trocando a água 3 ou 4 vezes. Quanto mais trocas, mais equilibrado o sabor final.
  2. Cozinhe até a carne ceder. Escorra, cubra com água limpa e leve à panela de pressão por 30 a 40 minutos, até um garfo desmanchar as fibras sem esforço.
  3. Desfie em fibras finas. Ainda morna, a carne desfia melhor: puxe no sentido das fibras até obter fios finos. Quanto mais fino o desfiado, mais crocante o resultado. Seque muito bem com pano limpo ou papel toalha.
  4. Adiante os acompanhamentos. Cozinhe as batatas com casca até o garfo entrar sem resistência, cozinhe os ovos por 10 minutos e aqueça o milho. Reserve tudo aquecido.
  5. Aqueça a frigideira de verdade. Coloque o óleo em uma frigideira larga e espere fumegar de leve. Doure o alho rapidamente e espalhe o charque desfiado em camada única, sem amontoar.
  6. Deixe crocar sem mexer. Resista à tentação de revirar: mantenha a carne em contato com o fundo por 2 a 3 minutos antes de virar. Repita até as pontas dourarem e estalarem — a textura lembra uma paçoca crocante.
  7. Tempere no fim. Polvilhe o colorau e a pimenta-do-reino, misture por 30 segundos apenas para envolver as fibras e desligue o fogo. O colorau queima rápido, por isso entra por último.
  8. Monte como em Oruro. Faça uma montanha de charque no centro do prato e distribua em volta as batatas, o milho, os ovos cortados ao meio e as fatias de queijo. Sirva em seguida, enquanto a carne ainda estala.

Os 5 erros que deixam o charquekan salgado ou borrachudo

  • Encurtar a dessalga. Com poucas horas de molho, o sal domina o prato inteiro e nem o queijo salva. Programe as 12 horas com trocas de água — é o passo que não aceita atalho.
  • Fritar a carne úmida. Água na frigideira vira vapor, e vapor cozinha em vez de dourar. Seque o desfiado com pano ou papel toalha antes de ele encostar no óleo.
  • Amontoar na frigideira. Carne empilhada abafa e solta líquido. Frite em levas, sempre em camada única, mesmo que demore um pouco mais.
  • Mexer o tempo todo. A crocância nasce do contato parado com o fundo quente. Vire poucas vezes, em intervalos de 2 a 3 minutos, e deixe a frigideira trabalhar.
  • Desfiar grosso. Pedaços largos douram por fora e continuam borrachudos por dentro. Fibras finas fritam por inteiro e estalam na mordida.

Perguntas rápidas

O que é charquekan? É um prato tradicional de Oruro, na Bolívia: charque dessalgado, cozido, desfiado e frito até ficar crocante, servido com batata cozida, milho, ovo cozido e queijo fresco. A carne frita em fibras finas lembra uma paçoca crocante.

Qual carne usar para fazer charquekan no Brasil? O próprio charque, fácil de encontrar por aqui, é a escolha natural. Carne seca também funciona muito bem — ajuste apenas o tempo de dessalga, provando a água entre as trocas.

O que é o mote que acompanha o prato original? É um milho andino de grãos graúdos, cozido até ficar macio, raro de encontrar no Brasil. A adaptação honesta é usar canjica branca cozida ou milho verde na espiga: a função no prato é a mesma, um contraponto suave para a carne dourada.

Charquekan é a mesma coisa que paçoca de carne seca? Não, mas são primos próximos. A paçoca de carne seca brasileira pila a carne com farinha de mandioca; o charquekan mantém as fibras inteiras e busca a crocância só na frigideira, sem farinha nenhuma.

Posso preparar a carne com antecedência? Sim. Dessalgue, cozinhe e desfie até 2 dias antes, guardando na geladeira em pote fechado. A fritura, porém, se faz na hora de servir: é ela que garante o estalo.

Que queijo combina com charquekan? Na Bolívia, usa-se queijo fresco local. Por aqui, o minas frescal ou o minas padrão cumprem o papel: fatias grossas, frias, que contrastam com a carne quente e salgadinha.

Se sobrar carne desfiada — o que é raro —, ela rende um ótimo escondidinho de carne seca cremoso no dia seguinte. E para a frigideira fazer a parte dela, dois aliados de despensa fecham o tempero: o colorau, que pinta as fibras de vermelho-tijolo, e a pimenta-do-reino, que coroa o prato com aroma. O resto é fogo alto e a paciência de deixar crocar.

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