Substituto de Louro em Cozidos

Tempo de leitura: 10 minutos.

O feijão já está na pressão, a carne já foi selada, e a receita pede duas folhas de louro. Você abre o pote e encontra o fundo: três pedaços quebrados que não dão nem uma folha inteira. O mercado fecha em vinte minutos e o cozido não espera por ninguém.

Não precisa parar. O louro faz um trabalho bem definido dentro da panela, e pelo menos quatro ervas que provavelmente estão na sua despensa fazem parte desse trabalho — desde que você acerte a dose. É aí que a maioria erra: uma colher de chá de alecrim no lugar de duas folhas de louro toma conta do feijão inteiro em vinte minutos de fervura, e não tem como tirar depois.

Resposta rápida

O que substitui a folha de louro num cozido? Para cada 2 folhas de louro, use 1/2 colher de chá de tomilho seco (0,6 g) ou 1/4 de colher de chá de alecrim picado (0,4 g). O tomilho entra na hora do refogado; o alecrim é mais forte e entra só nos últimos 20 minutos.

O que a folha de louro realmente faz num cozido?

O louro não tempera: ele constrói fundo. O óleo essencial da folha de Laurus nobilis é dominado por cineol — o mesmo composto que dá o cheiro do eucalipto —, que responde por 30% a 50% do total, acompanhado de linalol, eugenol e um punhado de terpenos amargos. Dentro da panela, isso vira três trabalhos ao mesmo tempo.

O primeiro é o amargo de fundo. Um amargor baixo, quase imperceptível sozinho, que corta a sensação de gordura do caldo de feijão, do rabo bovino, do cozido de porco. Tire o louro de uma feijoada e ela fica pesada na boca sem que você saiba explicar por quê.

O segundo é o aroma canforado, que abre o cheiro do prato. É o que faz o feijão cheirar a feijão de domingo em vez de cheirar a grão cozido em água.

O terceiro é mecânico e quase ninguém fala dele: a folha é inteira e sai. Você joga duas folhas, cozinha duas horas, pesca as duas e serve. Nenhum substituto picado devolve isso. É a parte da troca que mais estraga o prato, e é por isso que ela aparece de novo na lista de erros no fim deste guia.

Um substituto bom cobre dois desses três trabalhos. O tomilho cobre aroma e amargo. O alecrim cobre aroma, com um perfil resinoso que não é o do louro. A manjerona cobre o aroma e quase nada do amargo. Nenhum deles resolve o terceiro sem um saquinho de chá vazio ou um quadrado de gaze. Se você quiser ver a dose cheia do louro antes de decidir a troca, o guia de louro em folhas traz as proporções por prato.

Quanto de tomilho e alecrim usar no lugar do louro?

A conta começa pelo peso, não pela folha. Uma folha de louro seca inteira pesa de 0,15 g a 0,25 g. Uma colher de chá rasa de folha seca esfarelada — tomilho, alecrim, manjerona — pesa em torno de 1,2 g. Trocar duas folhas por uma colher de chá é multiplicar a massa aromática por seis. É esse cálculo mal feito que amarga o prato, não a erva escolhida.

A tabela abaixo parte sempre da mesma referência: 2 folhas de louro, cerca de 0,4 g, numa panela de 4 a 6 porções.

Substituto Equivale a 2 folhas de louro Peso Quando entra O que muda no sabor
Tomilho seco 1/2 colher de chá 0,6 g Com o refogado, no início O mais próximo do louro. Um pouco mais terroso
Alecrim seco picado 1/4 de colher de chá 0,4 g Últimos 20 minutos Resinoso, de pinho. Domina se passar do tempo
Manjerona seca 3/4 de colher de chá 0,9 g Com o refogado Mais doce, quase sem amargo de fundo
Sálvia seca 1/4 de colher de chá 0,3 g Com o refogado Amargo mais alto. Boa em porco e feijão branco
Zimbro em bagas 3 bagas amassadas 0,9 g Com o refogado Resina e cítrico. Caça, porco, chucrute
Louro em pó 1/4 de colher de chá 0,5 g Últimos 15 minutos Mesmo aroma, mas não sai e amarga se ferver muito
Tomilho + alecrim 1/2 col. chá de tomilho + 1 pitada de alecrim 0,8 g Tomilho no início, alecrim no fim A troca mais parecida com o louro de verdade

A última linha é a que resolve quando o pote está vazio mesmo. O tomilho entra cedo e monta o fundo amargo; a pitada de alecrim entra no fim e devolve a parte canforada que o tomilho sozinho não tem. Para entender por que cada erva pede um momento diferente da panela, o guia de alecrim em folhas mostra como a extração do alecrim continua subindo enquanto o fogo estiver aceso.

Qual substituto funciona em cada prato?

Substituto certo depende do que já está na panela. Num molho de tomate, o amargo do louro compete com a acidez e não pode subir. Numa carne de panela, ele é justamente o que segura a gordura e precisa aparecer. A tabela sai por prato, com a dose já feita — não é para dividir de cabeça no meio do preparo.

Prato Quantidade base Melhor troca Dose Por quê
Feijão preto ou carioca 500 g de grão seco Tomilho seco 1/2 colher de chá (0,6 g) Segura o caldo sem brigar com o alho do refogado
Carne de panela 1 kg Tomilho + alecrim 1/2 col. chá + 1 pitada A carne aguenta o resinoso e o cozimento é longo
Molho de tomate 800 g de tomate Manjerona seca 3/4 de colher de chá (0,9 g) Doce e macia: não soma amargo à acidez do tomate
Caldo de galinha 2 litros Tomilho seco 1 colher de chá (1,2 g) Caldo claro pede aroma limpo, sem resina
Lentilha 300 g Sálvia seca 1/4 de colher de chá (0,3 g) O amargo da sálvia levanta a lentilha, que é plana
Feijoada 2 kg de carnes Alecrim + zimbro 1/2 col. chá + 3 bagas Gordura alta pede substituto resinoso e forte
Sopa de legumes 2 litros Tomilho + talo de salsa 1 col. chá + 3 talos O talo devolve o verde vegetal que o louro dá
Peixe cozido em caldo curto 1,5 litro Tomilho + casca de limão 1/2 col. chá + 1 tira de 5 cm Peixe não aguenta alecrim: o pinho cobre o pescado

Repare que o tomilho aparece em seis das oito linhas. Se você vai comprar uma erva só para nunca mais ficar na mão, compre tomilho. É o substituto de louro mais versátil da despensa brasileira, e ainda cobre frango assado, batata e ovo.

E se você não tiver nenhuma erva seca em casa?

Tem saída, e ela não passa por erva nenhuma. O louro entrega aroma e um amargo baixo. Dá para montar os dois com o que já está na cozinha.

  • Casca de limão ou de laranja. Uma tira de 5 cm, só a parte colorida. O óleo da casca dá a parte aromática; o branco embaixo daria amargo demais e travaria o caldo.
  • Cravo-da-índia. 2 cravos numa panela de 4 porções. O eugenol do cravo é o mesmo eugenol que existe no louro, só que em concentração muito maior — por isso dois, e não cinco.
  • Pimenta-do-reino em grão. 5 grãos inteiros, jogados com o refogado. Não devolvem aroma, mas devolvem o corte na gordura, que é metade do serviço do louro.
  • Talo de salsa. 3 talos amarrados com barbante. O talo tem mais aroma que a folha e aguenta duas horas de fogo sem virar papa.
  • Nada. Duas folhas de louro num feijão de 500 g mudam pouco quando o refogado está bem feito. Entre não pôr nada e pôr uma colher de chá cheia de alecrim, não ponha nada: o prato sai neutro em vez de sair errado.

Quando a troca não funciona de jeito nenhum?

Três situações em que nenhum substituto salva, e o certo é adiar a receita ou mudar o prato.

Conserva e picles. Na salmoura, a folha inteira solta aroma devagar, por semanas, e continua sendo folha dentro do vidro. Tomilho picado turva a salmoura em três dias e vira borra no fundo. Conserva é caso de comprar louro ou fazer sem.

Bouquet garni de caldo clássico. O bouquet é louro, tomilho e salsa amarrados. Tirar o louro e dobrar o tomilho não faz bouquet: faz caldo de tomilho. Aqui a folha é insubstituível porque o papel dela é ser o contraponto ao tomilho, não o parceiro.

Marinada de 24 horas. No frio e em contato longo, a erva picada extrai muito mais que a folha inteira. Uma marinada com 1 colher de chá de alecrim por 24 horas deixa a carne com gosto de sabonete de pinho. Se a marinada é longa, use metade da dose da tabela e prove em 6 horas.

Quais erros estragam a troca do louro?

  • Trocar folha por colher. Uma folha de louro pesa 0,2 g; uma colher de chá de alecrim pesa 1,2 g. Trocar 2 folhas por 1 colher de chá multiplica a massa aromática por seis, e amargo de erva em caldo não tem conserto depois.
  • Pôr alecrim no começo de um cozido de 2 horas. O alecrim continua extraindo enquanto houver calor. Depois de 40 minutos de fervura o caldo inteiro vira pinho. Ele entra nos últimos 20 minutos, com a panela quase pronta.
  • Usar erva fresca na dose da seca. Erva fresca tem cerca de 80% de água. A dose é o triplo da seca em volume: onde a tabela pede 1/2 colher de chá de tomilho seco, entram 1 colher e meia de tomilho fresco.
  • Esquecer que o louro sai e o substituto não. Folha picada fica no prato, gruda no dente e continua extraindo depois de o fogo apagar. Use um saquinho de chá vazio, um infusor de aço ou um quadrado de gaze amarrado.
  • Compensar a falta de fundo com sal. Quando o caldo fica raso, a mão vai ao saleiro. Sal não devolve aroma: ele só levanta o que já está lá. Prove, espere dois minutos e prove de novo antes de salgar.
  • Comprar louro moído para não passar por isso de novo. O pó perde a maior parte do aroma em 6 meses. A folha inteira segura de 18 a 24 meses num pote fechado, longe do calor do fogão.

Perguntas rápidas

Quantas folhas de louro entram em 1 kg de feijão?

De 3 a 4 folhas para 1 kg de grão seco, jogadas com o refogado e retiradas antes de servir. Acima de 5 folhas o amargo aparece na frente e o caldo ganha um gosto de xarope. Se for substituir, a conta sai da tabela: 4 folhas equivalem a 1 colher de chá de tomilho seco, cerca de 1,2 g.

Orégano substitui folha de louro?

Mal. O orégano é dominado por carvacrol e timol, compostos de perfil apimentado e mediterrâneo, e ele não tem o amargo canforado do louro. Num molho de tomate passa; num feijão ou num caldo de carne, o prato fica com cara de pizza. Se for a única erva da casa, use 1/4 de colher de chá e aceite que o sabor muda de família.

Louro em pó serve no lugar da folha inteira?

Serve, com duas ressalvas. A dose cai muito: 1/4 de colher de chá de pó, cerca de 0,5 g, para 2 folhas. E o pó não sai da panela, então ele continua amargando em cozimento longo — entre com ele nos últimos 15 minutos. O guia de louro em pó traz as proporções por prato.

Tomilho fresco substitui folha de louro?

Substitui, na dose corrigida. Erva fresca tem cerca de 80% de água, então o volume triplica: onde entram 1/2 colher de chá de tomilho seco, entram 3 ramos pequenos de tomilho fresco. Amarre os ramos com barbante e pesque no fim, como você faria com a folha de louro.

Dá para fazer feijão sem louro nenhum?

Dá, e fica bom. O louro é um reforço, não a estrutura. A estrutura do feijão é alho, cebola e gordura bem refogados até dourar. Se o refogado estiver certo, a ausência de 2 folhas de louro passa despercebida por quase todo mundo à mesa. Errar a erva substituta, não.

A folha de louro é perigosa se alguém engolir?

A folha não é tóxica, mas ela não amolece no cozimento: continua rígida e com as bordas afiadas depois de 2 horas de panela. Engolida inteira, pode arranhar a garganta ou o esôfago. Por isso a regra de sempre contar quantas folhas entraram e conferir se todas saíram antes de servir.

Quanto tempo a folha de louro dura no pote?

De 18 a 24 meses fechada, longe do fogão e do sol. O teste é o cheiro: quebre uma folha ao meio e cheire de perto. Se não vier o canforado de imediato, a folha virou enfeite. A folha de louro inteira dura mais que o pó justamente porque o óleo essencial fica preso na estrutura da folha.

No fim, substituir louro é um exercício de peso, não de nome de erva. Meia colher de chá de tomilho seco no lugar de duas folhas resolve o feijão de hoje sem que ninguém pergunte o que mudou; uma colher de chá de alecrim no mesmo lugar arruína a panela inteira. Anote as duas doses num papel colado na porta do armário — 0,6 g de tomilho, 0,4 g de alecrim — e a próxima vez que o pote acabar vai custar dez segundos em vez de uma corrida ao mercado. E quando o que faltar for outra coisa, a mesma lógica de peso vale: veja como ela funciona no substituto de noz-moscada.

Voltar para o blog