Meu Cachorro Comeu Chocolate: A Conta Por Tipo e Por Peso
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Tempo de leitura: 10 minutos.
A caixa de bombom estava no sofá, embrulhada. Você saiu para levar o lixo e voltou com o papel picado no tapete e o cachorro lambendo os beiços. Faltam quantos bombons? Você não sabe. Eram ao leite ou aqueles amargos que ninguém come? Também não sabe. E a internet responde tudo ao mesmo tempo: uns dizem que chocolate mata cachorro, outros que um pedacinho não faz nada.
As duas respostas estão erradas porque as duas ignoram a única coisa que decide o caso: a conta. Chocolate não é um veneno de dose única. O que envenena é a teobromina, e a quantidade dela muda até dez vezes conforme o tipo de chocolate. Sem o tipo, o peso do doce e o peso do cão, ninguém sabe se você tem um susto ou uma emergência nas mãos. Aqui está a conta inteira, para você fazer em dois minutos.
Resposta rápida
Meu cachorro comeu chocolate: é grave? A conta é de teobromina: 20 mg por quilo de peso já dá sintoma. Num cão de 10 kg, isso são 36 g de chocolate meio amargo, ou 100 g de ao leite, ou só 9 g de cacau em pó. Pese o que sumiu e ligue ao veterinário.
Por que a conta é de teobromina, e não de chocolate?
A teobromina é um alcaloide do cacau, primo da cafeína. O ser humano metaboliza teobromina rápido. O cão, não: a meia-vida no organismo dele fica perto de 17,5 horas, segundo o MSD Veterinary Manual, o que significa que a substância continua circulando no dia seguinte à festa. Ela bloqueia receptores de adenosina e faz o coração acelerar, a musculatura tremer e o sistema nervoso ficar ligado na tomada.
Por isso não existe "quantos bombons matam um cachorro". Existe quantos miligramas de teobromina por quilo de peso ele recebeu. E a teobromina mora na massa de cacau, não no açúcar nem no leite: quanto mais escuro o chocolate, mais perigoso por grama. A lógica de porcentagem de cacau que você usa na cozinha, explicada em chocolate por porcentagem de cacau, é a mesma que decide o risco aqui, só que ao contrário: o que é qualidade para você é dose para ele.
Quanta teobromina tem cada tipo de chocolate?
Estes são os valores de referência usados em toxicologia veterinária. Guarde a primeira e a última linha: entre elas há um fator de mais de mil.
| Tipo | Teobromina por grama | Gramas por kg de cão para chegar a 20 mg/kg | Num cão de 10 kg |
|---|---|---|---|
| Chocolate branco | cerca de 0,009 mg/g | não se alcança na prática | risco é a gordura, não a teobromina |
| Chocolate ao leite | cerca de 2 mg/g | 10 g/kg | 100 g, duas barras pequenas |
| Meio amargo, 45% a 60% | cerca de 5,5 mg/g | 3,6 g/kg | 36 g, um terço de barra |
| Amargo, 70% a 85% | cerca de 8 mg/g | 2,5 g/kg | 25 g, dois quadradinhos e meio |
| Cobertura amarga ou 100% cacau | cerca de 15 mg/g | 1,3 g/kg | 13 g |
| Nibs de cacau | cerca de 18 mg/g | 1,1 g/kg | 11 g |
| Cacau em pó | cerca de 22 mg/g | 0,9 g/kg | 9 g, uma colher de sopa |
Uma colher de sopa de cacau em pó, 9 g, coloca um cão de 10 kg na linha de sintoma. A mesma linha exige 100 g de chocolate ao leite, onze vezes mais massa. É esse abismo que faz o tipo de chocolate ser a primeira pergunta de qualquer atendimento. Quem usa nibs em casa encontra o formato e a concentração de cada um em nibs, pó e massa de cacau, e a conclusão para o pote do cachorro é a mesma: nenhum deles entra.
O que acontece em cada faixa de miligramas por quilo?
| Teobromina ingerida | O que esperar | Conduta |
|---|---|---|
| abaixo de 20 mg/kg | em geral nada, ou moleza no estômago | observar, com o veterinário avisado |
| a partir de 20 mg/kg | agitação, vômito, diarreia, sede e xixi em excesso | avaliação clínica |
| 40 a 50 mg/kg | coração acelerado, arritmia, tremor, febre | atendimento imediato |
| 60 mg/kg ou mais | convulsão | emergência, internação |
| 100 a 200 mg/kg | faixa descrita como potencialmente letal | emergência, internação |
Traduzindo a linha mais grave: um beagle de 10 kg que come 130 g de chocolate amargo 70% recebe cerca de 104 mg/kg e está na faixa letal descrita na literatura. O mesmo beagle comendo 130 g de chocolate ao leite recebe 26 mg/kg, o que é ruim, mas é outro problema. Mesma barra, mesmo peso, desfechos diferentes.
Em quanto tempo aparece o sintoma e por quanto tempo ele dura?
Os primeiros sinais chegam entre 2 e 4 horas depois da ingestão, e podem demorar até 12 horas em quadros leves. A ordem costuma ser: inquietação e sede, depois vômito e diarreia, depois coração disparado e tremor, e só nos casos graves convulsão. Não espere ver o último item para agir.
A parte que surpreende é a duração. Com meia-vida perto de 17,5 horas e recirculação da substância entre o intestino e o fígado, o quadro se estende por 24 a 72 horas. É por isso que o veterinário costuma repetir carvão ativado ao longo do dia e insiste em manter o cão urinando: a teobromina pode ser reabsorvida a partir da bexiga cheia. Cão que melhorou à meia-noite não recebeu alta, só saiu do pico.
Quais são as 3 primeiras coisas a fazer agora?
- Salve a embalagem antes de limpar a bagunça. O rótulo tem o peso líquido e a porcentagem de cacau, os dois números que fecham a conta. Se já foi para o lixo, fotografe o que restou. Sem tipo e sem peso, o cálculo vira estimativa alta, e estimativa alta significa internação preventiva.
- Descubra quanto sumiu e a que horas. Conte os bombons que faltam, pese a barra pela metade, olhe quantos gramas tinha a caixa. Anote o horário. Depois divida: gramas de chocolate vezes a teobromina por grama, dividido pelo peso do cão.
- Ligue com a conta pronta. Fale com o seu veterinário ou com um plantão 24 horas e diga em uma frase: peso do cão, tipo de chocolate, gramas ingeridos, horário e o mg/kg estimado. Essa frase decide entre observar em casa e sair de carro agora.
E o que não fazer: não induza vômito por conta própria e não dê leite, café, óleo ou sal. Se houver indicação de esvaziar o estômago, isso é feito na clínica, com medicação própria, e só faz sentido nas primeiras horas.
Quando é emergência de verdade e quando dá para observar?
Saia de casa agora, sem esperar sintoma, se a conta passou de 40 mg/kg, se o chocolate era amargo, cobertura, nibs ou cacau em pó em quantidade, se o cão pesa menos de 5 kg, se é filhote, idoso ou gestante, ou se tem problema cardíaco, renal ou hepático. Vá também, em qualquer quantidade, se já houver tremor, respiração ofegante sem calor, coração visivelmente acelerado, incoordenação ou convulsão.
Dá para observar em casa, com o veterinário avisado por telefone, quando a conta ficou bem abaixo de 20 mg/kg, o cão é adulto e saudável, e o que ele comeu foi chocolate ao leite ou branco em quantidade pequena. Observar tem tarefa: olhar de hora em hora nas primeiras seis, contar a frequência cardíaca com a mão no peito, oferecer água, e não deixar o cão sozinho durante a noite.
E o gato, a embalagem e o chocolate zero açúcar?
O gato raramente ataca uma caixa de bombom, porque felinos não percebem sabor doce: falta a eles a função do gene do receptor de doce. Isso não significa que chocolate seja seguro para gato. Por quilo, ele é mais sensível que o cão, tem menos glucuroniltransferase para processar o alcaloide e adoece com quantidade menor. Um gato de 4 kg lambendo cobertura de bolo entra na conta.
Duas armadilhas somam risco. A primeira é a embalagem: papel-alumínio, forminha e saco plástico engolidos junto podem causar obstrução, e às vezes o corpo estranho é o problema maior. A segunda é o chocolate zero açúcar, que muitas vezes usa xilitol. Em cães, o xilitol derruba a glicose a partir de cerca de 0,1 g por quilo de peso, em 30 a 60 minutos, e ataca o fígado acima de 0,5 g/kg. Se a lista de ingredientes tem xilitol, a pressa é outra. A lista do que nunca vai para o pote está em alimentos proibidos para cachorros.
Os erros que pioram um caso de chocolate
- Jogar a embalagem fora. Sem o rótulo, some a porcentagem de cacau, que é o número que multiplica tudo. A clínica passa a trabalhar pelo pior cenário.
- Contar bombom em vez de grama. Bombom vai de 8 g a 40 g, e o recheio muda a proporção de chocolate. Pese, ou use o peso da caixa.
- Achar que vomitou e resolveu. Vômito espontâneo tira parte, nunca tudo. E a teobromina que já passou para o intestino continua sendo absorvida.
- Esperar o dia seguinte porque melhorou. Com meia-vida de 17,5 horas, melhorar às 2h da manhã não significa nada. O quadro pode voltar dentro das 24 a 72 horas.
- Dar café, chá preto ou refrigerante de cola achando que ajuda. São da mesma família de estimulantes. Você soma cafeína a um cão já intoxicado por teobromina.
- Ignorar o resto da caixa. Uva passa em barra de chocolate é nefrotóxica para cães e não tem dose segura conhecida. Cheque se havia passas, castanha-macadâmia ou massa de pão junto.
Perguntas rápidas
Meu cachorro comeu um bombom ao leite, é grave?
Um bombom de 15 g de chocolate ao leite tem cerca de 30 mg de teobromina. Num cão de 20 kg dá 1,5 mg/kg, longe da linha de 20 mg/kg: observe. Num filhote de 1,5 kg o mesmo bombom dá 20 mg/kg e já entra na faixa de sintoma. O mesmo doce, dois casos completamente diferentes.
Quanto tempo depois o cachorro começa a passar mal?
Os primeiros sinais aparecem entre 2 e 4 horas, às vezes até 12 horas depois. A teobromina tem meia-vida longa no cão, perto de 17,5 horas, então o quadro se arrasta por 24 a 72 horas. Um cão agitado às 22h pode continuar taquicárdico na manhã seguinte. Esperar passar sozinho não é plano.
Chocolate branco é perigoso para cachorro?
Pela teobromina, praticamente não: o branco tem manteiga de cacau, não massa de cacau, e fica em torno de 0,009 mg/g. Um cão precisaria comer alguns quilos para chegar aos 20 mg/kg. O risco dele é outro: gordura e açúcar em volume, que dão vômito, diarreia e podem desencadear pancreatite em cão predisposto.
Posso dar leite ou fazer o cachorro vomitar em casa?
Leite não neutraliza teobromina e ainda solta o intestino. E vômito induzido em casa é risco: sal de cozinha causa intoxicação por sódio e água oxigenada mal dosada queima o estômago. Não se induz vômito em cão apático, tremendo, convulsionando ou de focinho achatado. Quem decide isso é o veterinário, e a janela útil é curta.
O que exatamente eu levo para o veterinário?
A embalagem, ou uma foto dela. O rótulo traz o peso líquido e a porcentagem de cacau, e são esses dois dados que transformam palpite em conta. Leve também o peso atual do cão, o horário da ingestão e quanto sumiu em gramas. Com isso o cálculo de mg/kg sai em segundos na clínica.
Cacau em pó e nibs são piores que barra de chocolate?
Muito piores por grama. O cacau em pó fica na faixa de 22 mg de teobromina por grama e os nibs perto de 18, contra 2 mg/g do chocolate ao leite. Nove gramas de cacau em pó, uma colher de sopa, já colocam um cão de 10 kg na linha de 20 mg/kg. Pote de cacau no armário baixo é acidente esperando acontecer.
E se o chocolate for zero açúcar?
Aí entra um segundo veneno. Muitos produtos zero açúcar usam xilitol, que em cães provoca queda brusca de glicose a partir de cerca de 0,1 g por quilo de peso, em 30 a 60 minutos, e dano ao fígado acima de 0,5 g/kg. Nesse caso a urgência é maior que a do chocolate comum. Leia a lista de ingredientes e ligue imediatamente.
Faça a conta antes de decidir qualquer coisa: gramas de chocolate, vezes a teobromina por grama do tipo certo, dividido pelo peso do seu cão. Se o resultado passou de 20 mg/kg, ou se você não conseguiu identificar o tipo de chocolate, leve seu cão ao veterinário agora e leve com ele a embalagem, o horário da ingestão, a quantidade que sumiu em gramas e o peso atual do animal. Guardar chocolate em armário fechado e alto custa nada e resolve o problema para sempre.