Foto apetitosa de kimchi caseiro em destaque, ilustrando a receita apresentada no blog Granuz

Kimchi Caseiro: O Pote que Borbulha na Sua Cozinha

Tempo de leitura: 9 minutos.

Na terceira noite, o vidro em cima da geladeira faz um estalo baixo, quase educado. Você vira a cabeça achando que foi a casa se ajeitando no frio, mas não foi: dentro do pote, uma bolha do tamanho de uma cabeça de alfinete se solta do fundo, sobe rasgando a salmoura vermelha e some na superfície. Depois vem outra. E outra. A tampa, que você deixou frouxa de propósito, range um milímetro. O cheiro que escapa é picante, salgado e levemente ácido, como pimentão assado que passou a noite ao lado de um pote de picles. O kimchi está trabalhando.

Este artigo é a receita inteira do kimchi caseiro de acelga, do primeiro punhado de sal grosso até o dia em que o pote vira aquele condimento vermelho que você raspa da parede do vidro com o garfo. E vem com uma adaptação declarada logo de cara: aqui no Brasil, o gochugaru (o floco de pimenta coreano) não está no supermercado da esquina, então a pasta é montada com pimenta calabresa moída e páprica picante. Não é a mesma pimenta, e eu vou explicar exatamente onde a diferença aparece, para você decidir com informação e não com esperança.

Os ingredientes

  • 1 acelga inteira (1,3 kg a 1,6 kg), também vendida como acelga chinesa ou couve chinesa. Folha firme, base branca e grossa, pé sem manchas escuras.
  • 80 g de sal grosso ou sal marinho sem iodo (cerca de 1/2 xícara), para a salga.
  • 1,5 litro de água filtrada em temperatura ambiente, para a salmoura.
  • 1 colher de sopa rasa de farinha de arroz + 1 xícara de água, para o mingau que carrega a pasta.
  • 1 colher de sopa de açúcar (alimenta a fermentação e equilibra o sal).
  • 3 colheres de sopa de páprica picante, que dá a cor vermelha profunda e o volume da pasta.
  • 1 colher de sopa de pimenta calabresa moída, que entra com o ardor. Comece com 1 colher e ajuste depois de provar.
  • 1 colher de chá bem cheia de alho em pó (equivale a cerca de 8 dentes de alho fresco).
  • 1 colher de sopa de gengibre fresco ralado fino (aproximadamente 15 g).
  • 2 colheres de sopa de molho de peixe ou, na versão sem peixe, 2 colheres de sopa de molho de soja + 1 pitada de sal.
  • 1 nabo branco médio (200 g) em tiras finas. Sem nabo, use 1 cenoura grande em tiras.
  • 4 talos de cebolinha cortados em pedaços de 4 cm.
  • 1 pote de vidro de 2 litros com tampa, limpo e completamente seco.

Sobre a adaptação, com todas as letras: o gochugaru original é um floco de pimenta seco ao sol, de ardor médio, cor viva e um fundo levemente adocicado e defumado. A dupla páprica picante mais pimenta calabresa moída chega perto na cor e no corpo, mas o ardor é de outra natureza: a calabresa arde mais na ponta da língua, mais seca e mais direta, e sobe rápido. O gochugaru arde devagar e fica. Se você quiser o original, procure em empórios de produtos asiáticos, em mercados do bairro da Liberdade em São Paulo ou em lojas online especializadas em ingredientes coreanos, geralmente vendido em pacote de 500 g. A versão adaptada não é uma imitação disfarçada: é um kimchi de casa brasileira, e assume isso.

O passo a passo

  1. Corte a acelga sem desmontar. Apoie a acelga na tábua e corte no comprimento, em quatro partes, sempre mantendo um pedaço do talo duro da base em cada quarto. É esse talo que segura as folhas juntas durante a salga e faz o kimchi ficar com aquele formato de leque em vez de virar salada picada. Se preferir a versão prática de servir, corte cada quarto em pedaços de 4 cm depois da salga, nunca antes.
  2. Salgue por duas horas, virando na metade do tempo. Dissolva 60 g do sal na água filtrada e mergulhe os quartos de acelga em uma bacia grande. Com o restante do sal, esfregue folha por folha, insistindo na parte branca e grossa, que é a mais dura e a que menos absorve. Deixe 2 horas, virando os quartos aos 60 minutos. A acelga vai perder volume e a folha vai passar de rígida a dobrável: o ponto certo é quando você dobra a parte branca ao meio e ela verga sem quebrar.
  3. Lave três vezes e escorra de verdade. Enxágue os quartos em água corrente, abrindo as folhas com o dedo, e repita mais duas vezes trocando a água. Depois aperte cada quarto com as mãos, sem torcer, e deixe escorrendo em um escorredor por 30 minutos com o corte para baixo. Água parada dentro da folha vira salmoura aguada depois, e salmoura aguada fermenta torto.
  4. Faça o mingau de arroz e deixe esfriar. Em uma panela pequena, misture a farinha de arroz com a xícara de água fria, mexendo antes de acender o fogo. Leve ao fogo médio mexendo sem parar por 3 a 4 minutos, até virar um creme translúcido que escorre grosso da colher. Desligue, junte a colher de açúcar, misture e espere esfriar completamente. Esse mingau é o que faz a pasta grudar na folha em vez de escorrer para o fundo do pote. Sem farinha de arroz em casa, 1 colher de chá de amido de milho no mesmo volume de água resolve.
  5. Monte a pasta vermelha. No mingau já frio, adicione a páprica picante, a pimenta calabresa moída, o alho em pó, o gengibre ralado e o molho de peixe (ou o molho de soja). Misture com uma colher até virar uma pasta lisa, cor de tijolo molhado, que cai da colher em bloco. Prove com a ponta do dedo: ela precisa estar mais salgada e mais ardida do que você gostaria de comer pura, porque a acelga vai diluir tudo. Se estiver tímida, mais meia colher de calabresa.
  6. Junte os legumes e tempere folha por folha. Misture o nabo em tiras e a cebolinha na pasta. Vista as luvas (a calabresa fica horas na pele) e passe a pasta em cada folha da acelga, uma por uma, como quem passa manteiga em pão, sem economizar na parte branca. Termine dobrando cada quarto sobre si mesmo, com a folha de fora enrolando o pacote.
  7. Encha o vidro e expulse o ar. Coloque os pacotes no pote de vidro apertando com o punho a cada camada, para que a salmoura suba e cubra tudo. Pare quando faltar um terço da altura do vidro: o kimchi cresce durante a fermentação e sobe. Passe o dedo na bacia, recolha a pasta que sobrou e espalhe por cima como uma tampa vermelha. Se o vidro for reaproveitado, vale seguir o roteiro de como esterilizar vidros de conserva antes de encher, e secar muito bem.
  8. Deixe fermentar na bancada de 1 a 3 dias. Feche a tampa sem apertar até o fim, ou aperte e abra uma vez por dia para liberar o gás. Deixe o pote longe do sol, sobre um prato fundo (ele vaza, e vaza vermelho). No calor brasileiro de 28 graus, 24 a 36 horas já bastam; num inverno de 18 graus, pode levar 3 dias. O sinal é sonoro e visual: bolhas subindo, um borbulhar fino quando você encosta o ouvido no vidro e um cheiro que muda de "verdura temperada" para "levemente azedo".
  9. Prove e leve para a geladeira. Com um garfo limpo, tire um pedaço e prove. O ponto de parar é quando o azedinho já aparece mas ainda não domina: dali para frente, a geladeira continua o trabalho em câmera lenta. Feche bem, guarde na parte de baixo da geladeira e espere mais 3 a 5 dias antes de julgar o sabor. O kimchi de uma semana e o de um mês são dois condimentos diferentes, e os dois são bons.

Os 5 erros que transformam kimchi em acelga murcha

  • Salgar com sal refinado iodado. A tradição coreana usa sal marinho grosso, e não é frescura de receita antiga: o sal fino com iodo e antiumectante deixa a salmoura turva e leva a fermentação para um caminho irregular, além de salgar muito mais rápido pelo mesmo volume de colher. Sal grosso ou marinho, sem aditivo, e pesado na balança.
  • Pular o enxágue ou pular o escorrimento. São dois erros que moram juntos. Quem não lava as três vezes come um kimchi salgado a ponto de arder no lábio. Quem lava mas guarda a acelga encharcada dilui a pasta, a cor perde a força e o pote fica com um dedo de água rosada no fundo em vez de salmoura encorpada.
  • Encher o vidro até a boca. A fermentação produz gás e empurra o conteúdo para cima. Vidro cheio até a tampa transborda pela rosca, escorre pela geladeira e ainda entope a saída de gás. Um terço de espaço livre é o mínimo, e o prato embaixo do pote é seguro barato.
  • Mandar direto para a geladeira. Kimchi guardado a 4 graus desde o primeiro minuto não fermenta, ele só fica gelado: você vai abrir o pote em uma semana e encontrar uma acelga temperada e crocante, sem nenhuma acidez, se perguntando o que deu errado. O tempo na bancada é a receita, não uma etapa opcional.
  • Deixar folha para fora da salmoura e mexer com colher suja. O pedaço que fica exposto ao ar é onde nasce mofo, e a colher que passou por outra comida leva companhia indesejada para dentro do vidro. Regra fixa: tudo submerso, sempre um utensílio limpo e seco, e o que sair do pote não volta.

Variações e contexto

O kimchi que a gente conhece pela cor vermelha é o baechu kimchi, feito de acelga, mas ele é só um membro de uma família enorme. Existe o kkakdugi, cortado em cubos de nabo que estalam no dente; o oi sobagi, feito de pepino recheado, que é o kimchi de verão porque não pede fermentação longa; e o dongchimi, uma versão branca, sem pimenta, que fermenta em salmoura clara e é servida com o próprio caldo gelado. Na Coreia, a produção da grande leva do ano acontece no fim do outono, num mutirão de família e vizinhos chamado kimjang, quando se preparam dezenas de cabeças de acelga de uma vez para atravessar o inverno. Cada casa tem sua proporção, e discutir a quantidade de molho de peixe da receita da sogra é assunto sério.

Na cozinha do dia a dia, o kimchi quase nunca é o prato principal: ele é o contraponto. Aparece em uma tigelinha ao lado do arroz, junto de outros acompanhamentos, e a função dele é cortar o que é gorduroso e quebrar a monotonia do que é neutro. Por isso combina tão bem com carne de porco grelhada, com ovo frito de gema mole, com macarrão instantâneo e com um arroz japonês bem feito, de grão solto e brilhante, onde o vermelho do tempero mancha o branco e vira parte do prato. Depois de duas ou três semanas, quando fica bem ácido, ele deixa de ser acompanhamento e vira ingrediente: é o kimchi velho que entra no arroz frito, na panqueca salgada e no ensopado que os coreanos chamam de jjigae.

E vale dizer o que ele é dentro da lógica da despensa brasileira: mais uma conserva viva na prateleira, prima do picles de pepino caseiro com endro e do repolho fermentado que muita família de imigrante ainda faz em casa. A técnica é a mesma de sempre, sal e tempo, mudando só o tempero. Quem já fez picles em casa não vai estranhar nada aqui, a não ser a cor.

Perguntas rápidas

O que é kimchi? Kimchi é uma conserva coreana de verdura salgada e fermentada, temperada com pimenta, alho, gengibre e, na versão clássica, molho de peixe. A mais conhecida usa acelga, fica vermelha e desenvolve um sabor ácido e picante ao longo de dias de fermentação em temperatura ambiente. É servida em pequenas porções, ao lado do arroz e dos outros pratos.

Dá para fazer kimchi sem gochugaru? Dá, com adaptação declarada. A troca usada nesta receita é 3 colheres de sopa de páprica picante, que entrega a cor e o corpo, mais 1 colher de sopa de pimenta calabresa moída, que entrega o ardor. O resultado é honesto e saboroso, mas o ardor é mais seco e mais imediato do que o do floco coreano, que arde devagar e tem um fundo levemente adocicado.

Quanto tempo o kimchi fermenta fora da geladeira? De 1 a 3 dias, dependendo da temperatura da cozinha. A 28 graus, entre 24 e 36 horas costuma bastar; a 18 graus, pode levar 3 dias. Não conte só o relógio: prove a partir das 24 horas e leve para a geladeira quando a acidez já estiver presente e ainda leve.

Como sei que o kimchi estragou? Kimchi bom fica ácido, borbulha e cheira a pimenta com fermentado. Kimchi estragado apresenta mofo peludo, colorido, na superfície ou nas bordas do vidro, textura viscosa e escorregadia na salmoura e um cheiro que puxa para podre, não para azedo. Nesses casos, descarte o pote inteiro, não apenas a parte de cima.

Preciso usar molho de peixe? Não. Ele dá profundidade salgada e é tradicional, mas pode ser trocado por 2 colheres de sopa de molho de soja com uma pitada de sal, o que também torna a receita adequada para quem não come peixe. O sabor fica um pouco menos complexo e um pouco mais direto, e a fermentação corre igual.

Posso usar repolho comum no lugar da acelga? Pode, com duas ressalvas. O repolho é bem mais duro, então precisa de mais tempo de salga, cerca de 3 horas, e ele nunca fica com a textura macia e sedosa da acelga: continua crocante e mais grosso na mordida. Corte em pedaços menores e conte mais um dia de fermentação.

Por que meu kimchi não borbulha? As três causas mais comuns são frio, excesso de sal e ausência de açúcar na pasta. Cozinha abaixo de 18 graus atrasa muito o processo; salga longa demais ou sal em excesso freia a fermentação; e uma pasta sem nada de açúcar demora mais para arrancar. Mude o pote para o cômodo mais quente da casa e dê mais 24 horas antes de concluir que falhou.

Quanto tempo o kimchi dura na geladeira? Bem fechado, submerso na própria salmoura e manuseado sempre com utensílio limpo, ele se mantém por vários meses, ficando progressivamente mais ácido e mais macio. Nas primeiras semanas é kimchi de tigelinha; a partir do primeiro mês, o melhor destino é a panela, onde a acidez trabalha a favor de arroz frito e ensopados.

No fim, kimchi é sal, tempo e uma boa pasta vermelha. É a pasta que decide se o pote vai ser memorável ou apenas correto, e ela se resolve na prateleira dos temperos: a páprica picante para a cor de tijolo molhado, a pimenta calabresa moída para o ardor que você dosa colher a colher, e o alho em pó para aquele fundo constante que aparece em toda garfada. Monte o vidro hoje, deixe na bancada e, na terceira noite, encoste o ouvido. Se estiver borbulhando, deu certo.

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