Cravo-da-Índia e Pet: O Eugenol Que o Fígado Não Dá Conta

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O vidro de óleo essencial estava na cabeceira, aberto, e virou quando o gato passou por cima. Ele pisou na poça, andou até o corredor e sentou para se lamber, como faz cinquenta vezes por dia. A casa inteira cheirando a cravo. Meia hora depois ele estava salivando com a boca entreaberta e sem querer sair do canto.

É a cena mais comum de intoxicação por cravo-da-índia em pet, e ela quase nunca começa na comida. Começa num frasco de óleo essencial, numa receita caseira de repelente de pulga ou num difusor ligado a noite toda no quarto onde o gato dorme.

Resposta rápida

Cravo-da-índia faz mal para cachorro e gato? Faz. O eugenol do cravo é hepatotóxico, e o gato é o mais vulnerável: falta a enzima que conjuga fenóis. Óleo essencial de cravo tem 80 a 90% de eugenol; 1 ml num gato de 4 kg são 220 mg por kg. Botão inteiro no arroz é outro patamar.

O que é eugenol e por que o fígado do gato não dá conta?

Eugenol é o composto que dá ao cravo o cheiro e o efeito anestésico que a gente sente na gengiva. Quimicamente ele é um fenol, e é essa família que cria o problema. Fenol, para ser eliminado, precisa passar por uma reação de conjugação no fígado chamada glucuronidação, que gruda uma molécula de açúcar na substância e a torna solúvel em água para sair pela urina.

O gato faz essa reação mal. Ele tem atividade muito reduzida de glucuroniltransferase, a enzima responsável, e esse é o mesmo motivo pelo qual paracetamol mata gato em dose que um cão tolera. A literatura de toxicologia veterinária, incluindo o Small Animal Toxicology de Peterson e Talcott, trata a exposição de felinos a fenóis e a óleos essenciais como categoria de risco próprio, não como uma versão menor do caso canino. O Pet Poison Helpline mantém óleos essenciais entre as causas frequentes de atendimento em gatos.

O cão conjuga melhor, mas não é imune: em quantidade alta, o eugenol também é hepatotóxico para ele, além de irritar boca, esôfago e estômago no caminho. A diferença entre as duas espécies é de margem, não de natureza. É a mesma lógica que separa a lista de temperos permitidos para felinos da lista canina: o gato não é um cão pequeno, é outro metabolismo.

Quanto eugenol tem em cada forma de cravo?

Aqui está o número que reorganiza tudo. O botão seco de cravo tem 15 a 20% de óleo essencial em massa, e esse óleo é 80 a 90% eugenol. Na prática, cerca de 13% do peso de um cravo seco é eugenol puro. O óleo essencial engarrafado pula essa etapa: ele já é o extrato.

Forma do cravo Quantidade Eugenol aproximado
1 botão seco inteiro 0,1 g 13 mg
1 colher de chá rasa de cravo em pó 2,1 g 270 mg
Laranja decorada com 30 cravos 3 g 390 mg
1 gota de óleo essencial 0,05 ml 44 mg
1 ml de óleo essencial 1,04 g 880 mg

Uma gota de óleo essencial carrega o eugenol de três botões e meio. Um mililitro carrega o de quase setenta. É essa compressão que engana o tutor: a colher de chá do tempero parece a mesma coisa que o conta-gotas do frasco, e não é.

Agora a conta que interessa de verdade, que é por quilo de peso do animal. Um gato de 4 kg e um labrador de 30 kg recebendo a mesma gota estão em situações separadas por um fator de sete e meio.

Animal 1 gota de óleo 1 ml de óleo 1 colher de chá de cravo em pó
Gato, 4 kg 11 mg/kg 220 mg/kg 68 mg/kg
Cão pequeno, 5 kg 8,8 mg/kg 176 mg/kg 54 mg/kg
Cão médio, 15 kg 2,9 mg/kg 59 mg/kg 18 mg/kg
Cão grande, 30 kg 1,5 mg/kg 29 mg/kg 9 mg/kg

Para calibrar a ordem de grandeza: em medicina humana existem relatos de insuficiência hepática aguda em crianças pequenas depois da ingestão de 5 a 10 ml de óleo de cravo. Uma criança de 10 kg é o dobro de um gato de 4 kg, e o gato ainda conjuga fenol pior que ela. Não existe faixa segura de óleo essencial de cravo para felino, e é por isso que a régua aqui é exposição zero, não dose baixa.

Em quanto tempo aparecem os sinais e por que o pior vem depois?

A intoxicação por eugenol tem dois tempos, e confundir os dois é o erro que mais custa caro. O primeiro tempo é a irritação, e ele aparece rápido. O segundo é o fígado, e ele demora.

Tempo desde a exposição O que aparece, nesta ordem
0 a 2 h salivação intensa, ânsia, vômito, boca e língua avermelhadas
2 a 6 h ataxia, tremor muscular, apatia, hipotermia no gato
6 a 24 h recusa de comida, dor ao toque na barriga, prostração
24 a 72 h enzimas hepáticas em alta, icterícia: gengiva e olho amarelados
3 a 7 dias insuficiência hepática nos casos graves não tratados

Repare na quarta linha. O dano hepático não dá sinal na hora: ele aparece entre 24 e 72 horas, quando o animal já parou de salivar, voltou a andar direito e o tutor concluiu que o susto passou. Esse é o motivo pelo qual exposição a óleo essencial em gato não se resolve com observação em casa: o exame de sangue enxerga o que os olhos não enxergam, e ele precisa ser repetido no segundo e no terceiro dia.

Difusor de óleo essencial é perigoso para gato?

Depende do tipo, e a diferença é grande. Difusor passivo, aquele de varetas ou de pastilha aquecida, libera vapor com pouca massa de óleo. Difusor ativo, ultrassônico ou nebulizador, joga gotícula de óleo líquido no ar. Essa gotícula pousa no pelo, o gato se lambe e a exposição, que parecia respiratória, vira oral.

Some duas fragilidades do felino. Ele tem a via de conjugação de fenóis prejudicada, como já vimos, e ele passa entre 30% e 50% do tempo acordado se lambendo. Nenhuma outra espécie doméstica transfere tão bem o que está no ambiente para dentro da própria boca. Gato asmático piora ainda antes disso, com tosse e respiração de boca aberta, que em felino nunca é normal.

A regra prática: se há gato na casa, difusor ativo com óleo de cravo fica desligado. Se você usa em ambiente separado, o cômodo precisa ficar fechado ao animal e ventilado depois. E frasco de óleo essencial mora dentro de armário com porta, não na cabeceira, porque o acidente clássico é o frasco derrubado.

E o cravo do arroz doce, da carne e da laranja de Natal?

Esse é o cenário brando, e vale dizer com clareza para o tutor não entrar em pânico à toa. Um cão adulto de 15 kg que roubou dois ou três botões de cravo do arroz doce recebeu por volta de 40 mg de eugenol, menos de 3 mg por kg. O provável é irritação de boca, talvez um vômito, e nada além disso em 24 horas.

O que muda o patamar é a decoração. A laranja cravejada de Natal reúne 30 botões numa bola cheirosa, no chão, ao alcance do cachorro: são 390 mg de eugenol, mais casca e fiapo com potencial de obstrução. Num cão de 5 kg isso dá 78 mg por kg de um fenol, e aí a conversa deixa de ser sobre irritação.

O outro agravante é a companhia. Carne temperada com cravo quase sempre leva também alho e cebola, e o Allium é um problema separado e mais grave, com anemia hemolítica que só aparece de 1 a 5 dias depois. Vale a mesma advertência que a casa faz sem rodeio: a Granuz vende alho em pó e cebola em pó, e os dois são tóxicos para cães. Não dê ao seu cachorro. Quem quiser a lista fechada do que sai da despensa e não pode chegar ao animal encontra em temperos proibidos para cachorros; do lado seguro, há ervas como salsa, manjericão e hortelã em dose pequena.

O que fazer nas primeiras horas?

Três ações, nesta ordem, e elas mudam o desfecho.

  1. Interrompa a exposição e lave, se for pele. Tire o animal do cômodo, feche o frasco e desligue o difusor. Se houve contato com pele ou pelo, lave a área com água morna e detergente neutro de louça, que remove óleo melhor que sabonete, e seque. Enquanto o óleo estiver no pelo, o gato continua se envenenando a cada lambida.
  2. Ligue com quatro dados prontos. Peso do animal, produto exato com a concentração do rótulo, quantidade estimada em gotas ou mililitros e o horário. Óleo essencial e botão de cravo levam a condutas diferentes; sem essa distinção, o veterinário decide no escuro.
  3. Não provoque vômito e não dê leite. Óleo essencial é o pior candidato a vômito induzido: ele volta pela via aérea e causa pneumonia por aspiração, que às vezes mata antes do fígado. Leite não neutraliza fenol e ainda atrapalha o exame. Ofereça água, mantenha o animal aquecido e espere a orientação profissional.

Quando é emergência de verdade e quando dá para observar?

Situação Conduta
Cão acima de 10 kg, 1 a 3 botões inteiros, sem sinal observar 24 h, com água e refeição normal
Cão pequeno, cravo em pó na tigela ou laranja decorada veterinário no mesmo dia
Qualquer contato de gato com óleo essencial de cravo emergência, sem observação em casa
Óleo essencial na pele ou no pelo lavar e ir ao veterinário, mesmo sem sintoma
Filhote, idoso, gestante ou animal com doença de fígado veterinário sempre, qualquer quantidade
Salivação com tremor, ataxia ou prostração emergência agora
Gengiva ou olho amarelados no segundo ou terceiro dia emergência, é sinal de fígado

Os erros que transformam um susto em internação

  • Usar óleo de cravo como antipulga caseiro. É a receita de internet que mais manda gato para a internação: absorção pela pele mais ingestão pela lambida, sem nenhum controle de dose.
  • Pingar óleo essencial na coleira ou na cama. O animal dorme com a fonte encostada por oito horas e a exposição vira contínua, não pontual.
  • Guardar o frasco na cabeceira ou na mesa lateral. Frasco aberto e derrubado é a origem de boa parte dos casos. Armário com porta resolve, e custa nada.
  • Achar que passou porque o animal melhorou. A melhora de 6 horas é real e enganosa. A janela do fígado abre entre 24 e 72 horas e só aparece no exame de sangue.
  • Provocar vômito por conta própria. Com óleo essencial, o vômito induzido corta duas vezes: ele volta e vai para o pulmão.
  • Tratar gato com dose de cão. A margem do felino é outra, porque a enzima que elimina o fenol é outra. Mesmo raciocínio que vale para a cúrcuma, que é bem tolerada pelo cão em dose pequena e nem por isso libera o gato.

Perguntas rápidas

Meu gato lambeu uma gota de óleo essencial de cravo. É emergência?

É. Uma gota de 0,05 ml carrega cerca de 44 mg de eugenol, o que num gato de 4 kg dá 11 mg por kg de um fenol que ele não consegue conjugar. Não provoque vômito, não dê leite, não espere sintoma. Ligue para um pronto-socorro veterinário agora e informe a concentração do frasco, se souber.

Cachorro comeu cravo do arroz doce. Preciso me preocupar?

Dois ou três botões inteiros num cão adulto de 15 kg entregam cerca de 40 mg de eugenol, menos de 3 mg por kg. O risco maior nesse caso é irritação da boca e do estômago, com vômito único, e não lesão de fígado. Observe 24 horas. Se vomitar mais de duas vezes, recusar comida ou ficar prostrado, procure o veterinário.

Posso usar cravo-da-índia como repelente de pulga no meu animal?

Não. Essa é a receita caseira que mais rende internação em gato, porque o eugenol atravessa a pele e o animal ainda lambe o pelo. O Pet Poison Helpline lista óleos essenciais entre as causas comuns de intoxicação felina justamente por essa via dupla. Existem antiparasitários registrados e testados por espécie. Peça a prescrição ao seu veterinário.

Difusor de óleo essencial de cravo em casa faz mal para o gato?

O difusor ativo, que nebuliza óleo puro no ar, deposita gotículas no pelo e nas vias respiratórias, e o gato ingere tudo ao se lamber. Gato com asma ou rinite piora antes de qualquer sinal de fígado. Se houver gato em casa, mantenha o difusor desligado. Difusor passivo em ambiente arejado e fechado ao animal é o mínimo aceitável.

Em quanto tempo o dano no fígado aparece?

É essa a armadilha do eugenol: o efeito hepático não é imediato. Salivação e vômito surgem em 2 horas, apatia e tremor entre 2 e 6 horas, e a elevação de enzimas hepáticas costuma aparecer entre 24 e 72 horas depois. Gengiva ou olho amarelados no segundo dia indicam icterícia. Muito tutor já tinha concluído que passou.

Cravo em pó é mais perigoso que o botão inteiro?

Sim, e por dois motivos. O pó tem superfície muito maior, então libera eugenol de imediato na boca e no estômago. E ele engana o volume: uma colher de chá rasa de cravo em pó, 2,1 g, carrega cerca de 270 mg de eugenol, o equivalente a mais de 20 botões inteiros. Tempero em pó na tigela do animal nunca é dose pequena.

Meu cão roeu a laranja com cravos da decoração de Natal. O que faço?

Conte os cravos que faltam. Uma laranja decorada leva cerca de 30 botões, o que dá perto de 390 mg de eugenol, mais o risco de casca e de fiapo travando o intestino. Num cão de 5 kg isso é 78 mg por kg. Recolha o que sobrou, anote o horário e ligue para o veterinário no mesmo dia.

O cravo-da-índia é ótimo na sua cozinha e péssimo perto do seu animal, e a distância entre as duas coisas cabe numa gota. Se houve contato com óleo essencial, ou se o cravo em pó foi parar na tigela, não conte com a melhora das primeiras horas: leve ao veterinário levando anotado o produto e a concentração do rótulo, a quantidade em gotas ou mililitros, o horário exato e o peso atual do animal, e leve o frasco junto. Pergunte pela dosagem de enzimas hepáticas repetida em 24 e 72 horas, porque é nessa janela que o eugenol mostra o que fez.

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