Cachorro Lambeu Bebida Alcoólica: O Que Observar

Tempo de leitura: 11 minutos.

A lata ficou na mesinha da sala, no meio do jogo. Você levantou para buscar gelo e, quando voltou, o cachorro estava com o focinho dentro dela, lambendo a espuma que escorreu pela lateral. Ele tem 8 kg. Você não sabe quanto ele bebeu. E agora ele está andando meio torto até o sofá, com as patas traseiras abrindo.

Ou então o caso da massa de pão: você deixou o pote crescendo em cima do balcão, o cachorro subiu e comeu. Esse segundo caso é o que mais mata na cozinha, e é o que quase nenhum tutor associa a álcool.

Resposta rápida

Cachorro pode beber cerveja? Não. O MSD Veterinary Manual cita dose oral letal de etanol entre 5,5 e 7,9 g/kg, mas o sinal começa antes: 0,5 g/kg. Uma lata de 350 ml a 5% tem 13,8 g de etanol — num cão de 10 kg, 1,4 g/kg. Massa de pão crua fermenta e produz álcool no estômago.

Quanto de álcool já faz mal para um cachorro?

O número que importa não é o da lata: é o do quilo. O MSD Veterinary Manual, o mesmo Manual Merck que os veterinários consultam no plantão, registra a dose oral letal de etanol puro em cães entre 5,5 e 7,9 g por quilo de peso. Parece longe. Só que sinal clínico não espera a dose letal chegar — a partir de cerca de 0,5 g por quilo o cão já cambaleia, e o ASPCA Animal Poison Control trata ingestão de bebida alcoólica por animal pequeno como contato imediato, sem esperar sintoma.

Para sair do "um golinho" e chegar no número, use a densidade: etanol pesa 0,789 g por mililitro. Multiplique o volume da bebida pelo teor alcoólico, multiplique por 0,789 e divida pelo peso do cão. É essa conta que a tabela abaixo já faz para as bebidas que ficam na mesa.

Bebida Teor Porção Etanol Dose num cão de 10 kg
Cerveja 5% lata de 350 ml 13,8 g 1,38 g/kg
Chope 4,5% copo de 300 ml 10,7 g 1,07 g/kg
Vinho tinto 12% taça de 150 ml 14,2 g 1,42 g/kg
Cachaça na caipirinha 40% dose de 50 ml 15,8 g 1,58 g/kg
Whisky 40% dose de 30 ml 9,5 g 0,95 g/kg
Álcool em gel 70% 10 ml lambidos 5,5 g 0,55 g/kg

Leia a última coluna. Uma lata sozinha entrega 1,38 g/kg a um cão de 10 kg, quase três vezes o limiar em que o cambaleio aparece. No pinscher de 3 kg do apartamento ao lado, a mesma lata dá 4,6 g/kg — nove vezes o limiar de 0,5 g/kg em que o cambaleio começa, e encostando no piso de 5,5 g/kg da faixa que o MSD descreve como letal. O cão não bebeu "um pouco de cerveja": ele bebeu uma dose por quilo que, em gente, corresponderia a uma garrafa de destilado.

A segunda tabela responde a pergunta que o tutor faz de verdade no meio da noite: quanto de cerveja comum, a 5%, é preciso para o meu cachorro chegar nos 0,5 g/kg em que o sinal começa.

Peso do cão Cerveja a 5% que chega a 0,5 g/kg Comparação
3 kg 38 ml menos de um dedo de copo
5 kg 63 ml um terço de copo americano
10 kg 127 ml pouco mais de meio copo
20 kg 254 ml quase uma lata inteira
35 kg 444 ml uma lata e um quarto

Nenhum desses volumes é absurdo. Uma lata derrubada no chão espalha mais de 300 ml. Um copo esquecido no chão da varanda tem 200 ml. Álcool também não se parece com alho e cebola, que precisam de dias para mostrar a cara: aqui o efeito bate na mesma hora, e é isso que assusta o tutor.

Em quanto tempo aparece o primeiro sinal?

Com o estômago vazio, o etanol atravessa a parede do estômago direto, sem depender de nenhuma etapa de digestão. O MSD Veterinary Manual descreve início dos sinais em 30 a 60 minutos, com pico entre 1 e 2 horas. Comida no estômago atrasa a absorção, não cancela. Se o cão tinha acabado de comer, você ganha talvez 40 minutos — que é exatamente o tempo que muita gente perde pesquisando na internet em vez de ligar para o veterinário.

Tempo desde a ingestão O que costuma aparecer, nesta ordem
0 a 30 min hálito de álcool, agitação, salivação, sede
30 a 60 min ataxia (anda como bêbado), vômito, desorientação
1 a 2 h depressão, tremor, hipotermia, hipoglicemia
2 a 6 h bradicardia, respiração lenta, acidose metabólica
6 a 12 h coma e depressão respiratória, nas doses altas
12 a 24 h só na massa de pão crua: distensão que ainda piora

A ordem importa mais que a lista. Um cão que passou da fase agitada e entrou na fase quieta não está melhorando: ele desceu um degrau. Tutor que vê o animal parar de cambalear e ir dormir num canto costuma achar que passou. O que passou foi a excitação; o que chegou foi a depressão do sistema nervoso central, e ela vem acompanhada de queda de temperatura e de glicose. Hipotermia e hipoglicemia matam antes do etanol.

Por que massa de pão crua é pior que a cerveja?

Fermento biológico é fungo vivo. Ele come o açúcar da farinha e devolve duas coisas: gás carbônico e etanol. É por isso que a massa cresce, e é por isso que massa crescida cheira a cerveja antes de entrar no forno. Na bancada da cozinha isso é panificação. Dentro de um cachorro, é uma destilaria.

O estômago do cão está a 38 °C, é úmido, escuro e cheio de açúcar recém-entregue. É a melhor estufa que esse fungo vai encontrar na vida. A massa de pão crua não fica parada lá esperando: ela fermenta, dobra de volume e produz álcool durante horas. O ASPCA Animal Poison Control mantém a massa crua de pão na lista curta de emergências de cozinha exatamente por causa dessa combinação.

São dois danos ao mesmo tempo, e é por isso que o caso é mais grave que o da lata. Primeiro, a bola distende o estômago, e distensão gástrica em cão de peito fundo, como boxer, weimaraner e pastor alemão, é a antessala da torção, que é cirurgia de emergência. Segundo, o etanol é liberado em conta-gotas, sem hora para terminar: você não tem uma dose única para esperar metabolizar, você tem uma fábrica ligada dentro do animal.

Um número para fixar: 200 g de massa crua, uma bola do tamanho de uma laranja, num cão de 10 kg é caso de veterinário no mesmo dia, mesmo com o animal andando normal, abanando o rabo e pedindo comida. Nesse cenário, esperar sintoma é esperar a fase errada.

O que fazer nos primeiros 15 minutos?

Três ações, nesta ordem. Elas cabem em 15 minutos e mudam o que o veterinário consegue fazer quando você chegar.

  1. Recolha e meça. Tire a lata, o copo, o vidro ou o pote de massa do alcance. Olhe quanto sumiu e anote em mililitros ou em gramas, não em adjetivo. Anote também o horário exato. "Bebeu bastante" não permite nenhuma conta; "faltam 200 ml da lata, às 21h40" permite todas.
  2. Ligue antes de agir. Telefone para o seu veterinário ou para um pronto-socorro veterinário 24 horas com quatro informações prontas: peso do animal, o que ele ingeriu, quanto e há quanto tempo. É com esses quatro dados que se calcula a dose por quilo, e é a dose por quilo que define se você fica em casa ou pega o carro.
  3. Aqueça e vigie, sem improvisar. Cubra o cão com um cobertor e deixe água fresca ao lado. Não dê café, leite, comida sólida nem remédio humano. E não provoque vômito por conta própria: um cão que já cambaleia perdeu o reflexo que protege a via aérea e aspira o próprio vômito para o pulmão. Se o que ele lambeu foi perfume, enxaguante bucal ou desinfetante, o produto ainda machuca na volta. Quem decide se vomita é o veterinário.

Quando é emergência de verdade e quando dá para observar?

A linha divisória não é o susto do tutor: é a dose por quilo somada ao estado do animal. Esta tabela é a régua que vale às onze da noite, com o cachorro deitado no chão da cozinha.

Situação Conduta
Respingo, abaixo de 0,1 g/kg, cão adulto saudável, sem sinal observar 4 horas em casa, aquecido e com água
Entre 0,5 e 1 g/kg, ou cambaleio e vômito veterinário hoje, sem esperar amanhã
Acima de 2 g/kg, qualquer porte pronto-socorro veterinário agora
Filhote, idoso, gestante, diabético, cardiopata ou hepatopata veterinário mesmo sem sinal nenhum
Massa de pão crua, qualquer quantidade veterinário imediato, mesmo com o cão bem
Frio ao toque, tremor, convulsão, difícil de acordar emergência, corra
Gato, qualquer volume veterinário, sem observação em casa

Gato bebeu álcool: muda alguma coisa?

Muda tudo, e a razão é dupla. A primeira é aritmética: o gato doméstico pesa em média 4 kg, contra 10 kg de um cão médio. A mesma quantidade absoluta vira duas vezes e meia a dose por quilo. Meia taça de vinho, 60 ml a 12%, entrega 5,7 g de etanol; num gato de 4 kg isso é 1,42 g/kg, exatamente a mesma dose por quilo que a lata inteira de cerveja num cão de 10 kg.

A segunda razão é metabólica. O gato não é um cão pequeno: ele tem menos glucuroniltransferase, a enzima que conjuga e elimina uma porção de substâncias no fígado, e por isso acumula onde o cão já eliminou. É a mesma fragilidade que o faz sofrer com fenóis e com óleos essenciais, e é por isso que a lista de temperos permitidos para felinos é muito mais curta que a do cão. Nenhuma dose de cão vale para gato.

Some a isso o hábito de higiene: o gato lambe a pata o dia inteiro. Álcool em gel que respingou no pelo, desinfetante no chão recém-passado, perfume borrifado perto dele. Tudo isso volta pela boca. O caminho de intoxicação felina por álcool costuma ser esse, e não o copo em cima da mesa.

Os erros que pioram um cão embriagado

  • Dar café para "acordar" o cachorro. Cafeína é um segundo tóxico entrando num animal que já está com o coração alterado. Você troca depressão por arritmia e ainda complica o diagnóstico de quem vai atender.
  • Deixar dormindo para passar. O sono aqui é depressão do sistema nervoso central, com hipotermia e hipoglicemia por baixo. Cão que dorme não treme e não gera calor, e a temperatura cai mais rápido ainda.
  • Confiar na cerveja "sem álcool". A legislação brasileira permite até 0,5% de etanol nesse rótulo. Num cão de 3 kg que toma 300 ml, isso ainda é 0,4 g/kg. Sem álcool no rótulo não é zero álcool no copo.
  • Deixar a massa crescendo ao alcance. Balcão não é lugar alto para cachorro grande. Massa crescendo tem cheiro doce, textura macia e fica sozinha por uma hora: é a combinação perfeita para o acidente.
  • Estimar pelo tamanho, não pelo peso. "É um cachorro grande" não entra em nenhuma conta. Pese o animal ou use o peso da última consulta. Toda a toxicologia veterinária trabalha em miligramas ou gramas por quilo.
  • Ir para a clínica sem a embalagem. O rótulo traz o teor alcoólico, e o teor é metade da conta. Leve a lata, a garrafa ou o frasco, mesmo vazio. Vale o mesmo princípio de anotar o que mudou na alimentação antes de qualquer consulta.

Perguntas rápidas

Meu cachorro lambeu um respingo de cerveja e está normal. Preciso levar ao veterinário?

Se foi respingo em cão adulto e saudável acima de 10 kg, o mais provável é ficar abaixo de 0,1 g/kg e não dar nada. Observe por 4 horas, com água à vontade e o animal aquecido. Se aparecer cambaleio, vômito, tremor ou sonolência fora do normal, procure o veterinário na hora. Filhote, idoso, cardiopata e diabético não entram nessa regra: vão de qualquer jeito.

Cachorro pode tomar cerveja sem álcool?

Não. No Brasil, cerveja rotulada sem álcool pode conter até 0,5% de etanol, então zero não é zero. Além disso ela carrega lúpulo, e lúpulo em cão está ligado a hipertermia maligna em raças predispostas, quadro descrito na literatura de toxicologia veterinária. Não existe versão de cerveja feita para cachorro que valha o risco. Água é a bebida do cão.

Quanto tempo o álcool leva para sair do organismo do cachorro?

O cão metaboliza etanol mais devagar que a gente. Sinais leves costumam ceder em 8 a 12 horas; quadro moderado passa de 24 horas. Massa de pão crua é diferente: enquanto a bola estiver no estômago, ela continua fermentando e produzindo álcool, então o relógio nem começou a correr. Nesse caso, contar as horas em casa é o erro.

Álcool em gel na pata do cachorro é perigoso?

Álcool em gel a 70% tem 0,55 g de etanol em cada 10 ml. O cão lambe a pata e a mucosa da boca absorve rápido. Num cão de 3 kg, 30 ml lambidos ao longo do dia já passam de 0,5 g/kg. Passe álcool em gel nas suas mãos longe do animal e espere secar antes de deixar que ele lamba você.

Como sei se é só bebedeira ou se virou emergência?

Três sinais mudam o patamar: temperatura, consciência e respiração. Cão frio ao toque nas orelhas e nas patas, difícil de acordar ou com respiração lenta e espaçada saiu da bebedeira e entrou em depressão do sistema nervoso central. Convulsão e vômito com sangue também. Qualquer um desses três é corrida para o pronto-socorro veterinário, não observação em casa.

Posso dar leite, café ou água com açúcar em casa?

Leite não neutraliza etanol e ainda causa diarreia em cão intolerante à lactose. Café adiciona um segundo tóxico, a cafeína, num animal que já está com o coração acelerado. Água com açúcar parece boa ideia pela hipoglicemia, mas em animal sonolento vira risco de engasgo e aspiração. Ofereça água fresca, mantenha o cão aquecido e deixe a glicose com quem tem veia e soro.

Meu cachorro comeu massa de pão crua e não vomitou. Está tudo bem?

Não. Não vomitar é o pior cenário: a massa ficou. Uma bola de 200 g num cão de 10 kg cresce dentro do estômago a 38 °C e libera etanol por horas. Barriga distendida, ânsia improdutiva e inquietação são sinais de dilatação gástrica. Vá ao veterinário no mesmo dia, mesmo com o cão andando normal e comendo.

Álcool não é o único perigo que sai da nossa mesa para o chão da cozinha, e vale conferir a lista dos alimentos proibidos para cães para tirar do alcance hoje o que dá para tirar. Mas se o seu cachorro já lambeu a bebida ou comeu a massa crua, pare de pesquisar: leve ao veterinário agora, com o horário exato anotado, o que ele ingeriu, quanto em mililitros ou gramas, o peso atual do animal e a embalagem do produto na mão. Esses cinco dados encurtam o atendimento e são a diferença entre soro com glicose a tempo e uma noite ruim.

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